quarta-feira, agosto 10, 2011

Playtime

No pingue-pongue do peito
acreditando não acreditando
coração dança
aproveito

alma balança vem com efeito
devolvo a vida vai com força
vida avança
enquanto espreito

esperança no meu leito
no ziguezague do fogo
ainda ganho
do meu jeito

quinta-feira, julho 14, 2011

Negra rosa

Ao lado da parede do fundo da escuridão
onde só me alcança o vento
de dentro

No canto mais isolado da noite, impublicado
Há algo que alimento

E lá escorrego
escondo e rego

uma nesga de sentimento

segunda-feira, julho 11, 2011

Vazante

de repente a compressão no coração cheio
água vai transbordar

se a alma inunda
escorre mágoa
calma imunda sai
tudo sai nesses dois rios

pode parecer injusto
finda a correnteza
o povo migrante

mas pode esperar

nos leitos sombrios
depois da vazante
algo se move

afinal ano que vem
dizem que chove

quarta-feira, julho 06, 2011

Bússola

Andando pelo deserto onde moro
perdido nas dunas do pensamento

de tão sério,
deslizo no desejo
estéril

sigo inerte caravanas de sede
migro buscando a terra

onde se age e erra

sexta-feira, junho 24, 2011

Electro-pompe

Vedado do mundo
com meus desejos de escuro
(-ou meus escuros de desejo?)

eis que sinto o ebulir nos caldeirões de feitiço da alma

Isolado com meu bálsamo noturno
escuto a voz, rítmica e baixa
novamente canta algo essa caixa

bomba alimentadora
submersa no mangue
do meu sangue

segunda-feira, maio 16, 2011

Pangeia

sentado na beira da terra
balanço as pernas
no cais aéreo

espero a nave que me fará atravessar

essa água a impor
tanto
delimita amor
e pranto

onde está o fim desse mar
que vela para que os continentes continuem assim, separados?

mantém-me longe da minha vida
onde quer que ela resida

sexta-feira, abril 29, 2011

Ventania

Papelzinho decola no frio
doce voo sem asas

seu corpo solto
não pensa, só sente
a suspensa corrente

na brisa envolto
acaricia a cidade
desafia
a grave idade

seu destino fatal
chega mais rápido que ar
da noite de Dacar

quinta-feira, abril 21, 2011

Infecção

a hiperemia do meu peito
me toma o respeito
madrugada
se queima assim não vai restar nada

cresce em mim como um edema
poema que pune
meu sistema imune

Inspeto a pira, tá certo
inspira,
inseto

sábado, abril 09, 2011

Febre

Dança em delírio a madrugada
esse tempo de tudo e de nada
cintila e incendeia a calma que havia

Retornarei numa manhã fria,
mas a normalidade morna, apagada,
derreterá os cristais que levo em meus olhos

segunda-feira, março 07, 2011

Senciência

às vezes me pergunto
por que tanto me espalho por aí

ando o mundo inteiro atrás de um sentimento que já tive
tentando descolar a consciência de mim

... hoje acordei querendo ser enganado.

às vezes me pergunto
no que é que me espelho por aí

no vento, no vento,
não ser e estar,
ser e não ficar

se de verdade estou onde queria estar e faço
o que queria fazer,
com razão,

eu só queria mais coração

quinta-feira, março 03, 2011

Trincheira

vida fugaz
linha sozinha
a paz não me apraz

mergulhado em mim
vivendo eternidades de aridez
meu exército treina e espera

sem saber nem ao menos
de que lado entra na guerra

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Água mineral

Dia quente
e lindo

Envolto nessa alegria,
admito, não tive razão,
mas bem percebi que havia

uma fonte de água gelada
cristalina e doce
e fria
dentro da caixa pequena fechada
sincera e doce
e fria

Coração ainda de menino
Eu que morri e que vivo
dentro do mundo que imagino

Recuso o que emana do dia
dos sonhos felizes do ar
comungo só com o luar
que escalo na ventania
pra deixar a alma vazar

inteira
em cachoeira

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Bronchitis

I still stand here wet
wishing you to float into that air of hopes again

I had devised a world in which the light of you that I smoked would never go out
And the soft texture of your skin never burnt me fingers and
chest and thought
The lonely sweet ashes into which you’d be slowly consumed could linger
by the toxic inhaling of dancing you
perfuming these lungs of mine

But when I was about to suck you in
I was left in the dark to cough alone
And light rain damned me as your fire just disappeared

sábado, janeiro 29, 2011

Desassentado

Tanto andou pelo mundo
atrás de teto que agora
prefere ser vagabundo

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Natimorto

de certezas
o vento que varre lá fora
não traz um grão sequer

as mãos que se estendem
se contundem, se defendem

e a vida verdadeira ocorre em ciclos silenciosos de vício
em que o coração se alimenta de mil amores platônicos
impossíveis para quem já chora lágrimas para não mais precisar chorar

e assim me amordaço até que o grito que só eu escuto me enlouqueça

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Laroyê

se nascemos à imagem de um deus
vermelho e preto me chamaram. posso
ser o movimento que te faz voar,
como balão,
ou a força que te prende no chão

ao corpo, sempre ao corpo
humano erijo-me
à terra vim, da terra
do solo pra guerra

se com ferro frio e quente feres
aceito o que tu me deres

terça-feira, novembro 23, 2010

De volta a Sampa

à meia-noite
da minha velha torre
revejo os sonhos que finjo querer esquecer

revisito a cidade revolta
e bem hoje
em vez de se conformarem
os cidadãos resolveram apaixonar-se

a chuva inflama e entope o formigueiro frio
súbito explodem
os corações contidos em cápsulas,
bondes,
baldeações

estou perdido no labirinto
cidade violenta
em que os sonhos sequestram e fazem reféns

domingo, novembro 14, 2010

Falsa idade

o raio que gira daquela torre
encontra um observador noturno,
que recebe e devolve
os sonhos na imensidão azul

a vida
é a morte do sonho
que é a morte da vida

na cidade dos sonhadores apaixonados
só vejo a implicância elegante
o desejo de vida e morte

do papel branco ao pó cinza, ao negro,
um cinismo fatalista charmoso
destituído de charme

na noite azul e amarela da cidade da luz
talvez eu esteja errado em continuar
querendo sonhar
negando a paz, negra paz

mas às vésperas dos trinta anos
só queria que meu coração batesse mais

Paris, 14/11/2010

sexta-feira, outubro 15, 2010

Teu papel

Tuas linhas, tuas tintas
são letra e palavra
são ação, imaginada

Teu excesso de vírgulas
e reticências
prejudicam a sequência

então antes que, para o descarte,
eu te amasse,
saiamos deste impasse

domingo, setembro 26, 2010

quinta-feira, setembro 02, 2010

Frete

importa qual o navio?
embarca-se mercadoria
sem medo de extravio

em toda partida dada
a vida será partida
a parte será selada
o sonho, cantiga ida
o sonho, fé renovada

em portos de qualquer porte
há mares imaginários
em surtos de toda sorte
amares imaginados

terça-feira, agosto 17, 2010

Barco

Acampando na sala de estar
eu deixo estar
de novo

Experimentar a covardia
é um exercício
do povo

Se eu me atrevesse a atravessar
o mar de dor e mágoa que nos une
o mar de paz e água que nos separa

me levaria o barco para o tudo e para o nada
para a vida por que anseia minha alma exilada

Mas o recomeço precisa de um tropeço

quinta-feira, agosto 12, 2010

Minhas janelas para o mundo

Do escuro vejo piscando cruzes,
Sirenes que vão e vem, luzes,
Não sei se emano minha solidão ou a colho da noite

Sei que estou longe, mas te penso aqui
onde a aurora de opala não te pode sentir
Não sei se emano minha solidão ou a colho da noite

Da sala vazia, sombria, vejo um porto macio
Que leva pro dia, pra longe, pro frio
E não sei se emano minha solidão ou a colho da noite

quarta-feira, julho 07, 2010

Eterno ringue

a noite cai a mente vê
a paz não é fácil
como nunca será

numa sala escura fechada
meu coração cerra os punhos
e se prepara novamente
para lutar

quarta-feira, junho 02, 2010

segunda-feira, maio 31, 2010

Harmattan

Essa neblina seca
transformou

o ouro é prata no céu
o sono é sede no chão

e a gente arenosa rola com o vento
esperando a chuva que alaga os sonhos

quarta-feira, abril 28, 2010

Sinapse

Voando livre e leve
como um pensamento

só temo o que se deve
pro esquecimento

sábado, abril 03, 2010

Crescente vermelho

ódio rasgado na curva
unha enterrada, num corte cirúrgico,
neste despertador movido a sangue
que um dia há de me fazer acordar
para a eternidade

quinta-feira, março 25, 2010

Não lugar

A nuvem de poeira vem do deserto
da beira da minha costa
voa longe o coração mais perto

estive onde vira o mundo
que vaga e vive, vagabundo,
odiando o que você mais gosta

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Comprando cigarros

Não achei que fosse tão fácil sumir, e não é. Sair de cena como fosse ao cinema ou, clássico é clássico e vice-versa, dar uma volta para espairecer e comprar um Marlboro Light no boteco da esquina.

A vida é tão interligada que está sempre mais difícil desaparecer de vez. Claro que o Brasil de hoje não é tão diferente do de antigamente, ele ainda é meio Central do Brasil. Uma ida do interior de Pernambuco à periferia do Rio de Janeiro, nas infindáveis horas do busão ou da boleia do caminhão, ainda pode desmembrar uma família, mas hoje o sumiço é muito mais difícil. Hoje sempre há um telefone celular que alguém ainda conheça, um amigo-cúmplice que eventualmente dá com a língua nos dentes, uma conta de e-mail perdida que você não teve coragem de apagar, como um cordão umbilical que ainda te une ao mundo a abandonar.

Vejam por exemplo o coitado do Belchior, só queria abandonar honestamente a mulher e os filhos, como tantos que o precederam, mas tinha o Fantástico para achá-lo no interior do Uruguai. Interior do Uruguai! Não basta mais morar na periferia ou numa favela, como o Hulk do Rio. A localização familiar já se expandiu ao Mercosul.

Claro que os anônimos contemporâneos também têm problemas. Hoje não há mais, por exemplo, a ditadura pra sumir com você; só a violência das cidades, a polícia, os bandidos. Mas isso não é sumir com qualidade. O sumiço ideal tem de ficar cristalino como sumiço, não pode parecer crime. Ou você quer sua foto estampada nas contas de luz da CEB, no intervalo do Linha Direta ou de alguma novela da Gloria Perez? Aí te acham. E a família desesperada nos seus calcanhares? Vai te deixar em paz? Muito melhor se, mesmo não tendo a capacidade de argumentar, de implorar a sua não-partida ou mesmo de ofender, a criança ranhenta ou a moça grávida saibam que você é um cafajeste, um pilantra, um covarde que simplesmente resolveu dar um restarte numa vida não-recomeçável. E é melhor pagar as contas antes de sair, para sumir sem o SPC bloquear o seu cartão escondido, para evitar credores em geral, que têm sabujos ainda mais eficientes que os das mães solteiras e encontram qualquer Zé Carioca em uma lata de lixo escondida.

Esse é o mundo de hoje. Mesmo aqui na África Ocidental, do outro lado do Atlântico, numa cidade de 2 milhões de habitantes, tenho todas essas tretas localizadoras: e-mail, orcute, feicebuque, celulares, emprego com página na internet e telefone, conta no banco e carteirinha. Mais localizável que se estivesse pregado num banco de madeira no Rei das Batidas numa quinta à tarde ou sentado no vão do MASP na véspera de Natal às 10h da manhã.

Se um dia precisar sumir, vou ter que ir ainda mais longe, para uma cidade ainda mais populosa ou remota. Apagar todos perfis e cancelar e-mails, pagar contas e, principalmente, começar a fumar. Aí vou poder tranquilamente sair para comprar, como diria o amigo Xico Sá, o king size sem filtro do abandono.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Setor hoteleiro full-time

na esse-dois perto da esquina com a dáblio-três
por baixo do eixinho-ele
debaixo da sua pele

nos vácuos da luz
a noite fuma meninas,
eonistas e insultos

nas pistas da Viadulto
é o lixo que seduz

eis o programa de voo do avião
por onde passe,
da primeira à nona classe

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Volta à capital

um dia em que não estava fazendo nada
pintei um ponto branco bem no meio do mapa
peguei meu carro e lá fui descobrir aventuras
voar nas asas
não de ave mas do avião
monomotor
que eternamente cruza parado o meio do Brasil
batendo o mesmo ponto
sempre naquele turno
sozinho e vasto
vago e soturno
como a imensidão do céu do centro

que hoje é cinza
como o concreto desse chão que cobre a nossa terra vermelha

quinta-feira, novembro 19, 2009

Esgoto

que humano barato
que humana barata
eu sou,
pode falar!

nas águas sujas da vida
em armários cheios de sobras
sobrevivo à hecatombe
nuclear

quarta-feira, outubro 28, 2009

Haliêutico

suor é lágrima
no seco há sal

transborda a tristeza e a tensão
regula a temperatura do corpo
e do coração

segunda-feira, outubro 05, 2009

Xadrez

meu espírito é gris
quadricula-se infinitimamente
em degradê

do branco da manhã
ao preto de depois de você

sexta-feira, setembro 11, 2009

Deixa pra cá

em volta
na distância
na lembrança
-ou pensamento-,

se te arranho por dentro
vês que é preciso tempero
pra viver no desespero

poderás lançar sobre mim
o nada que, sim, mereci,
mas nunca saberás, de fato,
tudo o que senti

segunda-feira, setembro 07, 2009

Do contra

nesse vento
nada gruda
nessa vida
nada fica
isso é lento
nada muda
e a ferida,
calcifica?

sexta-feira, agosto 28, 2009

Gergelim

só surge a vida
se não tem saída
quando fica mais seco
abre-se o sésamo desse beco

mas quando o chão que piso e suja e gruda
fica menos úmido
que esses sonhos que engulo de saliva e pó
vem chuva

abre-te, pira
semen-teiro
sê-me inteiro
sê mentira

ensimesmado,
boquiaberto
chego de errado
no tanto certo

e minha alma se faz
límpida como esse céu de nuvens

ainda não sei
ainda
se realmente estamos prontos para tanta vida

Azul-turquesa

perdoe-me
por querer separar-me da aurora
antes que ela se desprenda da noite
antes que ela nos desprenda da noite
antes que ela nos desprenda

vou agora.

No ardor das pálpebras
em sonhos fotofóbicos de lágrimas
nas brisas pelas quais eu voo e vago
carrego essa manhã interrompida
nas tremulantes cores desse lago

terça-feira, julho 07, 2009

Esse tempo

O sol que abençoa
é o mesmo que pune, magoa.

Infatigável
é seu peso na minha testa,
cancerígeno e gostoso

nesse me-render a ele,
no criar da sua sombra,
fiz-me líquido e gasoso...

o sol à-toa, imune,
é o mesmo que nos une.

Dobrar-me à sua vontade, inutilmente,
é algo que eu sempre fiz ultimamente

segunda-feira, junho 29, 2009

Freezing halfway over the world

não me esqueça
congelado
nem me esconda

sou do agrado?
me aqueça
no microondas

Óleo verde

mar de areia
a banda verde
incendeia

sobrevivo,
seco como
lábios líbios

terça-feira, junho 09, 2009

Partida

Aberta a porta
meu capacho é pesar, é pranto, é pó
é parêntese

segunda-feira, junho 01, 2009

Heisenberg

Fazendo girar
o mundo
vou correndo
vou voando

meu coração bate,
depois pede
quero ter tudo pela frente

Para não ser
localizado
é preciso
velocidade

o chão traçado late,
depois cede
quero ser tudo pela frente

Para ser, em sonho, tudo,
necessito não ser nada;
sem o que me faça claro,
tuas ondas não me acham
estampado no anteparo...

quinta-feira, maio 14, 2009

Responsabilidade

Não sou o responsável
não!
Alegra-me a liberdade
da falta de resposta
da brisa largada, amável!

o mau que só inspira o bem
o com que prefere só sem

terça-feira, maio 05, 2009

Vaga Amor, Vago Amar

Quisera um amor que fosse a-mar,
um amor que não fosse vaga, que não fosse vago.
O mar há de ser sempre amaro.

Quero um a-mar,
um amor que invade e não se recolhe das calçadas, das casas, das ruas.
Quero a vida que arrebata, que afoga, que mata,
que é sim sem ser não.

Um amor que cega sem seguir
ou cobrar, no cobrir
das areias da solidão.

segunda-feira, maio 04, 2009

Desfazendo-me

Toda noite contigo é dia;
Toda conversa, caminhar na prancha,
Todo sonho contigo é mancha.

Mas, se o choro me alivia,
também deprime, desloca, desmancha:
desnuda-se minha covardia.

quarta-feira, abril 08, 2009

Vagando

Se vago, se volto,
atrás de qualquer coisa e não de coisa qualquer,
com a mente esquecida da vaga inconstante,
não movo esse saibro com minha maré

Minha mente, de passagem,
está sempre em viagem.
Não processa
nem reflete
nunca nada
além de pressa.

Ainda assim,
gosto da leviandade que subsiste no umbigo da noite,
mas trabalho tanto o tempo,
que o retiro amargamente do dia.
Desperto, desaperto
e sou nada,
embrião de saudade calada.

Onde estive,
quando me procuráveis,
onde estava,
quando apareci?

Se quando parti eu sonhei que ficava,
e, agora que fico, só quero partir?

quinta-feira, março 05, 2009

Extemporânea

Neste momento, o que sei é que
só compartilhamos a presença onisciente da noite

Mudança de estado

Solidificando minhas certezas,
ao condensar a mente, cansada do voo,
deitei pelos olhos a alma liquefeita.

Sublimei os sentimentos com enjoo
e congelei a chama, que fique presa;
que o que ebule depois sujeita.

sábado, fevereiro 14, 2009

Atmosfera

O céu aumentou com a distância

Nas retas oblíquas de Brasília
abraça-me o vento
mas, se retribuo o carinho ao breu,
não sinto nada

sem você
esta cidade se sente como eu
abandonada

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Arqueiro de Códego-City

Tocando feito harpa
teu arco imenso
de pó vermelho e cifras

Descubro; melhor, revelo
da terra seminua
tuas caixas enfileiradas
tuas regras
tuas ruas

Revejo tua cidade invisível
do tal povo que bem sofre, não sei onde,
da flecha que te justifica e fere
das vidas que ostentas e escondes

Não causa estranheza teu papel
e o que desfiro faz mais sentido
se me cobre, quando atiro, o teu céu.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Burocracia

Documentos secretos
não comente
do cu
mentes
se retos
ou não

Resignação

Por querer ser tudo
por que não ser nada?

Apenas porto meu disfarce
e já posso tomar parte!

Que bela e convencional arte
essa de violar-se...

domingo, janeiro 18, 2009

Hermeticamente

Denso mas fugidio
mercúrio contido no vidro

A física do calor que expande
não transborda

Tenho nas veias a prata rápida
tóxica e fluida
nas mãos, a ascensão da energia
e a combinação do que se associa mas não se confunde

Porém, se minhas duas serpentes
me tornam mensageiro dos deuses,
interpreto, apenas,
e vivo nos limites da minha mortalidade

Bom comportamento

Noite colada nos olhos
gargalo escorrendo abaixo

penso não caber nos papéis
nos testes de atores da vida

ao fundo, isolado da hora do sono,
intuo
primeiro passo para a maturidade é deixar de frustrar-se

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Mordaças

Na praia, entrevi a intenção rosa
não-pano que não cobre
e esconde

Deste lado, preso, o pássaro
finge sufocar

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Meus parabéns

Prestes a fazer aniversário,
escrevo desejando-me felicidades,
e são muitas as minhas vontades
para essa tarde de sagitário.

Estranho alguém desejar o melhor para si,
mas isso é o que me ocorre
agora que me achego do que morre
e me afasto do que nasci.

Dos familiares quero amor,
Dos amores, compreensões quaisquer,
Dos grandes amigos, os momentos de sempre,
sempre que der.

Dos amigos distantes aquela lembrança
concreta ou abstrata,
um pensamento, um telegrama,
uma visita, uma carta,
mas que não se esqueçam desta data.

Que eu nunca alcance a perfeição,
mas nunca desista de viver;
Que a infância nunca passe,
nem o sorrir,
nem o sofrer.

Que as forças ocultas ajudem a todos
juntos
em especial.
Feliz aniversário para nós, afinal.

terça-feira, novembro 18, 2008

Escorpião

Seu rastro é perceptível, que tal?
no cheiro de enxofre cósmico,
na trilha aérea internacional
na urina dessa meia-lua,
na noite parceira de rua

a música já ouvi
levanta o astral
e canta...
o cara-de-pau

das ruas da bastilha
ao mercado de omdurman
o trem... singra pelo ar
espiando pela escotilha
no catar ou em amsterdam
ele vem, vai desembarcar

Ele pica antes de atirar

Está levando a cabo
a nossa destruição
que doce este final!
Terrível o tal diabo
do inferno astral

domingo, novembro 02, 2008

Andarilho

Esta poeira grudou em minha pele
corro no vento para torná-la ao nada
por ora, volto para de onde vim...

Mas a terra ínfima, pulverizada,
da cor da noite não há quem desatrele,
se a poeira hoje é parte de mim.

Este vento resfriou-me de levada
um mar de pó que tanta vida propele
são faces e risos e coisas sem fim...

Pois a terra ínfima, pulverizada,
da cor da noite não há quem desatrele,
se a poeira hoje é parte de mim.

Não há eu que o movimento cancele,
ainda que a reflexão da mente em caçada
seja vaga, leviana e ruim.

Mas a terra ínfima, seca, pulverizada,
da cor da noite não há quem desatrele,
se a poeira hoje é parte de mim.

sexta-feira, outubro 24, 2008

Gol, o grande momento

acaricia a chute
o coração que carregava
por entre os pés

(em cada guerra que se dispute,
de armas ou travas,

fortuna ou revés
fazem amor com a relva
cortada e sem flor

e que no fundo é uma selva
de chance e de dor...)

e em simples lufada de sorte
o homem a todos trepida
instante que transborda vida
momento que inspira a morte

terça-feira, outubro 07, 2008

Translucidez

Incomoda-me o sol, pinto de negro minhas janelas
para tentar esconder-me desde cedo
(na manhã da alma o sol sempre brilha mais)
os raios revelam os traços
as mesas não têm gavetas

O erguer do sol faz sombra sobre coisas belas
(e que coisas coleciono, rapaz)
mais que livros tenho segredos
tantos que os armários são rasos
e as camas parecem sarjetas

Vedo as portas, ponho cortinas, apago as velas
(vivo o que de vida é arremedo)
internalizo a expansão dos espaços
para que seja ignorado, tido por incapaz,
e a visibilidade não me acometa

Mas um dia eu quis ser visto, eu quis gritar,
quis mostrar que era belo,
limpo, transparente,
e vi que não era nada disso
nem era isso o que achava a gente

e pude esgoelar-me até o fim

e esgotei
enquanto caía a noite na alma

quinta-feira, setembro 25, 2008

Implorar, ímpio chorar

A alma de cheiro é alma de choro,
perfuma,
permite a espuma

Largue-se inteiro, esqueça o decoro
Prostitua-
se prostre e ela é tua

Quero ver seus lábios me pedindo para ficar

Amor maior, do mundo voltei,
dos desvarios da vida de fora!

Mesmo sendo um tarado fugaz,
que satisfaz, mas não se demora,
quero mais a você e não nego

Aceite a chantagem que carrego,
que lhe esfrego, e farei
do retorno a você minha lei:

No mel que escorre
da cana doce chupada, lambida,
lambuze-se por sua vida

porém, antes que eu esporre,
me esgote,
e agora! E de verdade

que a felicidade
é um esporte

Se levo vida em flanada
por Áfricas quentes, Europas geladas
e Orientes médios

voltei e não quero tédio
quero uma enchente da sua saliva
e sua língua mais agressiva
que as explosões de Cabul

quero ver você toda histérica
antes de eu conquistar sua América
do Sul

terça-feira, agosto 19, 2008

Hipoglicemia

Alimento-me
por sonhos de fogo-fátuo

nuvem que fosse
algodão-doce
desmanchando na boca
pouca

Não pago a fome que trago
e vês
o pranto que nutro no canto
pelo pútrido pão que retalhas
e pouco crês, e tanto falas,

que não peço,
nem falhas:
tropeço atrás das migalhas.

(e é tudo de graça!
Vivo de luz e desgraça.)

Que eu vede o que vós vedes

Começo e me pedes
tropeço na rede.
É começo em parede
se tropeço e me medes.

Expresso e esqueço
o apreço em excesso,
apresso, enrijeço
e mereço o sucesso.

Recomeço e pareço
travesso, confesso,
te peço, obedeço,
avesso, e cesso.

sexta-feira, agosto 01, 2008

Way of life

Aos telhados do mundo,
as pedras que ainda estão no ar
por jogar

Temos a loucura que transborda das pálpebras,
que seca e funde-se à poeira e ao vento
e não nulifica por dentro

Feliz essência de vida e lágrimas!

Nossa revolução, amarrada e muda,
não precisa mais de ajuda

quarta-feira, julho 30, 2008

Evanescer

A alma que resplandece
-a fé no nada-
é calma que evanesce
-abala montanhas-

Se sou volúvel
sou vontade
sou solúvel
sou saudade

segunda-feira, julho 21, 2008

Ageometria

Não é fácil dar sentido à existência.

Pelo menos, sem saber sua direção...

Afinal, o sentido é uma propriedade associada a uma direção. Se considerarmos que uma direção pode ser representada por uma reta, cada direção pode ter dois sentidos, que indicam os dois percursos possíveis sobre o tal caminho. Por exemplo, se considerarmos a direção vertical, os dois sentidos possíveis são para cima e para baixo. Na direção do ônibus, há o sentido centro-periferia e o sentido periferia-centro. O de quem vai e o de quem vem. E na direção do que existe, há coerência?

Difícil de achar, a tal direção. Vou ou venho? Difícil dizer em que caminho corre uma vida de desvios múltiplos, de caminhos concomitantes, complementares, suplementares, paralelos, perpendiculares, em transversão...

E o módulo então? Qual o módulo, a especificação de valor de nossa existência? E que que unidade de medida usaremos, a felicidade, a bonomia, as realizações (financeiras, profissionais, genéticas ou emotivas)?

Pobres coisas que estão vivas!

Que existência sem sentido,
direção,
módulo,
medida!

A geometria
ageométrica
é geomântica
como a vida!

Vida que é confusa e triste!
Por que é que tudo existe?...

segunda-feira, julho 14, 2008

Cal lendária

A alma dança e desfila
faz fila
na esperança oscila

E o menino fere, confere

final a quem comporte
sorte
pontual como a morte

terça-feira, julho 01, 2008

quarta-feira, junho 25, 2008

Utensílios

Tesoura
de cortar pesadelos

Agulha
que costure o fio de lágrimas

Colher
(pra adoçar as palavras)


pra parar de medir as mágoas

quarta-feira, junho 18, 2008

Arco-e-flecha

O sangue seco do chão
brotando por suas ruas
não-becos, calhas e luas
por vento lento
pulverulento

Por ímpeto sagitário,
que vila vã cinabrina
almeja a volta ao Atlântico?
Minha mercúria menina,

no tic-tac do erário,
tuas setas tintas de dentro
coagulam em par romântico
o virgem verde do centro.

Pó rubro, não vens em vão.
Brasília te utiliza
e a vida que paralisas
é seca, mas coração.

E sei, sinto, pelo ar,
que a cada frágil instante
esperas chuva cintilante
para pulsar...

terça-feira, junho 10, 2008

Segredinho

ofusca
alma que brilha
e trilha
a picadilha

tão brusco
e andarilho
partilho
os pecadilhos

segunda-feira, junho 09, 2008

Leve afeto

coração que brinca
coração que blefa
ele não se finca
ele só me leva

e se ele te trinca
não te deixa treva
pois tanto te enleva
que também te vinca

e se ele aposta
depois só eleva
e se ele gosta
sempre existe entrega

se não tás disposta
ele te carrega
e se ele fez bosta
você me releva?

sexta-feira, maio 23, 2008

Endeusando

Arbítrio retorta
saltando da alma
soprando a vida

marreta a calma
no aço da porta
e forja a saída

quarta-feira, maio 14, 2008

Salvem nossas vozes!

O não-acontecimento
trouxe rimas mais impuras
perturbou as estruturas
de nosso edifício bento,

nada havendo no ar que brade
pelo nosso salvamento.
Veio vento violento
e pôs fim à voz dos covardes.

O cenário que se afigura
demonstra fragilidades,
expõe as veleidades,
ofende a literatura,

faz do caos o soberano
e mata sem avisar.
Tira do parceiro o par,
torna o divino mundano.

Sem voz que logre entoar
ante o mal a tal canção,
disso sendo anfitrião,
só vou me manifestar

silenciando, por que não,
no plano da ação no plano.
Nada há de mais humano
que aguardar intervenção...

sexta-feira, maio 09, 2008

Gateando

Gorgolejo tua essência

Gazeteando em lençóis
grafamos na cama
o alfa e o gama:
É greve entre nós.

Instigo as gônadas,
galante e gracioso,
e cravo no gozo
a garra que mata

em tua pele, teu pêlo de gata

sábado, maio 03, 2008

Inverno

Não trema
o frio esquenta
nem tema
o coração

falei-me
o cedo nem sempre é tarde
calei-me
do jeito que é mais covarde

domingo, abril 27, 2008

Spleen

lick me
until I leak

spear me from the cost
unless I speak

I feel the chill
please let's not spill
spine, sponge, spear
sugar

terça-feira, abril 22, 2008

Baú

Caixas enfileiradas
iluminadas
dispostas ao longo de longas linhas
largas
surdas
minhas
mudas.

Moro no ninho do pássaro em chama
da gente encaixotada
do povo bem escondido.
Há grama que não reclama
piada ainda não contada
e grito que é gemido.

E no vazio do norte-sul
da brisa livre e azul

estanco.

Com um tranco e nada mais
eis que atraca meu caixote
que por tudo e dois reais
vai ao fim da asa norte.

sexta-feira, abril 18, 2008

Eco

Dos sentimentos
que hipoteco

--tanto repenso
que disseco--,

só queria
um repeteco

terça-feira, abril 15, 2008

Glacial

Planície branca
anti-ártica
de repente estanca
a estática

(in)fértil
como salitre
no alvor álgido
do alvitre

quinta-feira, março 20, 2008

Arte

Cada artista dos que somos
tem algo de inumano
inamistoso
e cada trecho que componho
transparece
nossa incapacidade de sentir
o que vem de fora
ou de dentro
de você

Cada artista dos que somos
tem algo de desumano
desonroso
estou disposto a traficar sonhos
não esquece
pegue a oportunidade de sentir
antes estou fora
agora dentro
de você

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Verão

Fui buscar minha alma onde a deixei
da última vez em que não estive lá
e o cerrado trabalho me consumiu

mas a terra seminua tornou-se rio
bastou a vida o ano novo gerar
e rumo ao alegre sereno naveguei!

Patinamos na tropical neve,
a nave, a areia, a greve,
com o azul-verde-líquido
que banha os espíritos
e lava e suja (e lava)
e em nossa mente se cava

e nos forma em coração.
Se é a Memória quem vale,
fiz um calendário só de janeiros!

Um ano de risos inteiros...

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Amar é criar?

Amor é, ou não,
fetiche da incompreensão?

Se querer é ter ilusões de eternidade
Eu as tive, colecionei,
E, coração:
Amor é o nome da coleção

Pois então eu que te fiz,
O que és é o que eu quis;
Vives cá em minhas brumas
E nuvens de inspiração,
Existência tens nenhuma
Fora da imaginação.

Se é assim, eu te toquei,
Mas teu corpo não é teu,
Tu que amo vive em mim.
O que a boca prometeu
Pra você baixinho assim
Pro teu corpo eu nem falei...

Holograma inteligente
Tu és outrem que mereço
Nada em ti é bem real
Esta boca às vezes mente,
Mas tu mesma eu nem conheço
E quem somos afinal?

Mas não te aborreças com isto!
Afinal, também, pra ti,
Certamente não existo...

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Feliz 2008!

A todos, votos de felicidades, aventuras e alegrias!!
Eu ando vivendo as minhas...

domingo, dezembro 23, 2007

Verde

Desacato cristalino
no compasso
menino
sentido lato
um arregaço
nos círculos mais finos

no mundo negro dos sapatos
esperança é estardalhaço
ainda franzino
puro negro esmeraldino

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Única voz

Desfile pela floresta
sem chocar-se
em árvore nenhuma
ou galho ou moita

ou presa afoita
ou porção de bruma
e trespassar-se
será sua grande festa!

Seja inerte ao passado
seja flecha disparada
rumo ao ignorado
pois a vida é tudo e nada...

segunda-feira, novembro 12, 2007

Soneto do fracasso de público

Tenho por testemunha o nada em cio
o nada multiplicado ao relento
que, ainda que vão, vive em aumento
e se reproduz por meses a fio.

Meus escritos são vento macio
represado em meu apartamento
e não merecem desapontamento
ou loa, inverno ou estio.

Jogando palavras no vazio,
no compulsivo preenchimento
de meu vácuo pensamento,

meu oco é muito mais frio,
se nem te causo arrepio
no despejar de um tormento.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Liber

Inflei meu peito sofrido
busquei o gargalo gelado
para escorrer...
da long-neck
mas sem pileque

Resta saber...
se a ciência da dor
vai entender

terça-feira, outubro 16, 2007

A cordilheira

Se a totalidade do sereno
está no terreno do impossível,
o invisível torna-se o pleno.

Ater-se a uma vida corriqueira,
sem dar as caras ao mundo, na média,
já que a vida-cordilheira
está fadada à tragédia?

Ou perder-se em pensamentos,
sonhando silente em pé,
com o que podia estar sendo
agora que não mais é?

Aprecie o privilégio
de uma mente indesperta:
o que se opõe ao tédio,
no saber, é a descoberta!

Então viva pelo avesso
e perceba
que o melhor do sonho é o começo

Sufoco

Silencie o amor
sufoque o soluço
segure o espirro
espasmo de dor

A estrela que nasce contida
se debate
no embate-contrário da vida

A palavra doce é retida

angústia secreta
no andor
o grito engolido
em flor

e a morte súbita
decúbita
se erige

estoura na mente
o rio não chorado
estoura no peito
o berro travado

de todos os sonhos que nutria
sobrou-lhe a asfixia

domingo, setembro 16, 2007

Descarrilhando

-"Não percebeu que o espírito do homem ia talvez descarrilhar" (Machado de Assis, "Quincas Borba")

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Andei achando que me encontrei
despistei o que desgovernou
Saí-me do cerne do que sou
para ser do seio do que sei.

Pois do pai eu sou sempre o filho
e em minha sina não humilho, mas malho
e nos trilhos do trem eu trabalho
pra voar sem barreira ou anilho.

Se, com as raivas da rinha, não ralho
e, no desvio das vias, vacilo
e não calo e nem falo e nem puxo estrilbilho,
do talho da torpe moral tenho o estalo:

sei que o trem fere o filho
com a frente que sai do trilho

quinta-feira, agosto 16, 2007

Má inflluência

Tenho andado tão certinho
um homem perfeito, assim tão direito
que dorme na linha e sempre cedinho
na batalha diuturna de escritório

E na vida minha de burocrata
rotina paulatina da sala ao mictório
nos corredores verde-grises do governo federal
cruzando a soberba vã dos diplomatas
durante um ploc-ploc qualquer dos sapatos brilhantes
após conversas e pessoas insípidas de café
me sinto travesso, prevejo um tropeço
ainda que por um instante

a um gênio qualquer
eu peço um desejo
e logo te vejo
menina-mulher.

tu surges assim triunfante
não me reconheço, me ponho do avesso
puxo-te um papo sem topo nem pé
e a vida rebola com a graça de antes
vêm-me ânsias imensas e exatas
vou te raptar desse dia banal
ofertando meu amor provisório
sem dramas e sem serenata

sem falsas promessas de mau parlatório
Eu digo o que quero... tua mente adivinho!
Teu jogo com jeito de êxtase aceito
e gozo gemendo baixinho

quinta-feira, agosto 02, 2007

Eixão

seis vias que vão e vêm
se os dias em vão me vêem
vai comigo lá em cima
e volta
ventando?

no eterno azul
a fluidez do ar seco me escapa

até dezesseis no teu mapa
meu norte é teu sul

sou radar que te busca
na freada brusca

terça-feira, julho 10, 2007

Sagitário

A flecha disparada rumo ao ignorado
voa voa voa voa

os cascos sorvem energia telúrica
a mente devaneia sob a inconstância

no meio, a raiva do fogo queima
velha alma combure
sem rancor

e do calor
vem a ânsia
de quebrar o ovo e buscar o novo
sempre de novo

pois na roda mutante
nada vai mais de um instante

e se não sei o que acerto,
se acerto, se é certo,
só sei que mudar é mais importante

Quem não explora atrás da esperança
nem se arrisca,
não vive criança

No céu

minha seta conquista a distância,
a estrela pisca
transforma a lembrança

Na lua

não mente o que sente
o coração:
com paixão não há compaixão.

Se, mudo, mudo de ti assim,
perdoa-me,
componha-te.
Queixas não ouvirás de mim.

segunda-feira, junho 11, 2007

Joystick

Te vejo no tédio:
remédio.

O fósforo habito...
palito?

Do corpo sou ramo,
te inflamo...

Se falta a faísca,
me risca!

domingo, maio 06, 2007

A vida como ela não deve ser

Homenagem ao gênio rodrigueano instalado em nossa hipocrisia cotidiana.


A ciumenta

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Ao ver com ela uma cena louca de perda e morte no cinema, o rapaz começou a pensar e perguntou, de repente e despretensiosamente:

- E se a gente terminasse? Você ia também querer me matar?
- Sim, por que não? Hehehehe...
- Não, estou falando sério? E se a gente terminasse?
- Por que, você quer terminar comigo?
- Não é isso.
- Então por que essa pergunta cretina? Faz alguma diferença?
- ...

Ele não respondeu, mas a verdade é que fazia. Queria saber, não obstante a amasse loucamente e nunca tivesse pensado em deixá-la, se continuava no domínio do livre arbítrio ou estava preso ao compromisso.

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A perseguição

Até aquele dia, o rapaz tinha vivido na mais absoluta harmonia com Suzete. A jovem era bem-huumorada, não implicava com nada, nem com a sempre suspeita combinação de futebol, cerveja e amigos desacompanhados que Malaquias se reservava às quartas-feiras. Ele, bem apessoado, até se incomodava com a falta de ciúmes da pequena. A seu amigo mais próximo, Genésio, confidenciava: "Acho que ela não gosta de mim, nem se importa quando passo com ela na rua e as outras me comem com os olhos!"

No entanto, naquela noite, no cinema, ele viu nela uma fagulha de senso de pertencimento: era o tal ciúme mesmo, um medo descabido do fim. E aquilo o perturbou. Suzete continuava a se comportar como sempre, permitindo-lhe um desprendimento que beirava o inusual. Não se importava nem com a proximidade constante entre Malaquias e amigas bonitas. Ainda assim, o rapaz começou a achar que a namorada mandava vigiar cada passo seu.

Os dias se passaram e agonia foi crescendo. Qualquer brincadeira da mulher no sentido de mostrar um ciúme lúdico punha-o apavorado.

- Minha pequena me persegue, é o cão!, dizia a Genésio. Olha feio para todas as minhas amigas!

- Que nada, rapaz, ela só pensa em ti! E nem ralha com o teu futebol, nem quando você chega bêbado na casa dela, com cheiro de pinga...

- Pois é! Alguma coisa tem aí, te digo! Aposto que ela manda alguém me seguir!


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Desfecho inesperado


Meses depois, Malaquias já tinha hábitos um tanto heterodoxos. Saía de casa em horários escusos e disfarçado, e percorria trajetos despistantes. Como não descobrisse nada de diferente no temepramento da namorada, arrumou uma amante, só para ver se Suzete o vigiava. Com a nova pequena, uma feiazinha chamada Isabel, tornava-se cada vez mais descarado. Uma vez foi com ela ao cinema da cidadezinha de interior, na frente de todas as fofoqueiras, só para ver o resultado. E Suzete nada dizia, com o que ele asseverava: "Aí tem coisa! Ela me vigia, deve ter vídeos, fotos, eta diabo ciumento!"

Um dia, irritou-se, foi com Isabel à casa de Suzete e perguntou:

- Escute, você andou ouvindo que ando saindo com Isabel?

- Ouvi sim, meu amor, mas é tudo intriga desse povinho maldoso! Te amo mais que tudo, confio em você! Isabel é só uma amiga, não é?

- Mas como é falsa! Disfarça esse teu ciúme agora, disfarça!

E beijou a boca de Isabel na frente da namorada, do sogro, da prima deficiente. Foi escorraçado sob vassouradas da tia fofoqueira. Só então se deu conta da besteira que tinha feito, do relcaionamento perfeito que tinha destruído frivolamente, desde aquela noite no cinema.

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O cinema e o burro

Mudou-se da cidade com Isabel. No dia em que soube, por um primo maldoso, que Suzete havia se casado com seu antigo melhor amigo, Genésio, foi com a ex-amante ao cinema ver um musical.

Ouvia aquelas canções, poemas sonoros, com os olhos marejados e a milhares de quilômetros. A mão que acariciava era outra, mas nem parecia. Ao pensar na pequena que perdeu, uma lágrima rolou em seu rosto. No entanto, de súbito mudou de idéia: pensou em Genésio e ficou com raiva.

- A culpa foi desse cara, agora eu vejo. Era um filho-da-puta mesmo. Estava de olho nela e inventou que a pequena era ciumenta só pra roubá-la de mim.

Isabel, conformada com o homem burro e bonito que tinha arranjado, limitou-se a mandá-lo ficar quieto, para que não atrapalhasse o filme.

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Conto escrito em 02.05.07