No pingue-pongue do peito
acreditando não acreditando
coração dança
aproveito
alma balança vem com efeito
devolvo a vida vai com força
vida avança
enquanto espreito
esperança no meu leito
no ziguezague do fogo
ainda ganho
do meu jeito
quarta-feira, agosto 10, 2011
quinta-feira, julho 14, 2011
Negra rosa
Ao lado da parede do fundo da escuridão
onde só me alcança o vento
de dentro
No canto mais isolado da noite, impublicado
Há algo que alimento
E lá escorrego
escondo e rego
uma nesga de sentimento
onde só me alcança o vento
de dentro
No canto mais isolado da noite, impublicado
Há algo que alimento
E lá escorrego
escondo e rego
uma nesga de sentimento
segunda-feira, julho 11, 2011
Vazante
de repente a compressão no coração cheio
água vai transbordar
se a alma inunda
escorre mágoa
calma imunda sai
tudo sai nesses dois rios
pode parecer injusto
finda a correnteza
o povo migrante
mas pode esperar
nos leitos sombrios
depois da vazante
algo se move
afinal ano que vem
dizem que chove
água vai transbordar
se a alma inunda
escorre mágoa
calma imunda sai
tudo sai nesses dois rios
pode parecer injusto
finda a correnteza
o povo migrante
mas pode esperar
nos leitos sombrios
depois da vazante
algo se move
afinal ano que vem
dizem que chove
quarta-feira, julho 06, 2011
Bússola
Andando pelo deserto onde moro
perdido nas dunas do pensamento
de tão sério,
deslizo no desejo
estéril
sigo inerte caravanas de sede
migro buscando a terra
onde se age e erra
perdido nas dunas do pensamento
de tão sério,
deslizo no desejo
estéril
sigo inerte caravanas de sede
migro buscando a terra
onde se age e erra
sexta-feira, junho 24, 2011
Electro-pompe
Vedado do mundo
com meus desejos de escuro
(-ou meus escuros de desejo?)
eis que sinto o ebulir nos caldeirões de feitiço da alma
Isolado com meu bálsamo noturno
escuto a voz, rítmica e baixa
novamente canta algo essa caixa
bomba alimentadora
submersa no mangue
do meu sangue
com meus desejos de escuro
(-ou meus escuros de desejo?)
eis que sinto o ebulir nos caldeirões de feitiço da alma
Isolado com meu bálsamo noturno
escuto a voz, rítmica e baixa
novamente canta algo essa caixa
bomba alimentadora
submersa no mangue
do meu sangue
segunda-feira, maio 16, 2011
Pangeia
sentado na beira da terra
balanço as pernas
no cais aéreo
espero a nave que me fará atravessar
essa água a impor
tanto
delimita amor
e pranto
onde está o fim desse mar
que vela para que os continentes continuem assim, separados?
mantém-me longe da minha vida
onde quer que ela resida
balanço as pernas
no cais aéreo
espero a nave que me fará atravessar
essa água a impor
tanto
delimita amor
e pranto
onde está o fim desse mar
que vela para que os continentes continuem assim, separados?
mantém-me longe da minha vida
onde quer que ela resida
sexta-feira, abril 29, 2011
Ventania
Papelzinho decola no frio
doce voo sem asas
seu corpo solto
não pensa, só sente
a suspensa corrente
na brisa envolto
acaricia a cidade
desafia
a grave idade
seu destino fatal
chega mais rápido que ar
da noite de Dacar
doce voo sem asas
seu corpo solto
não pensa, só sente
a suspensa corrente
na brisa envolto
acaricia a cidade
desafia
a grave idade
seu destino fatal
chega mais rápido que ar
da noite de Dacar
quinta-feira, abril 21, 2011
Infecção
a hiperemia do meu peito
me toma o respeito
madrugada
se queima assim não vai restar nada
cresce em mim como um edema
poema que pune
meu sistema imune
Inspeto a pira, tá certo
inspira,
inseto
me toma o respeito
madrugada
se queima assim não vai restar nada
cresce em mim como um edema
poema que pune
meu sistema imune
Inspeto a pira, tá certo
inspira,
inseto
sábado, abril 09, 2011
Febre
Dança em delírio a madrugada
esse tempo de tudo e de nada
cintila e incendeia a calma que havia
Retornarei numa manhã fria,
mas a normalidade morna, apagada,
derreterá os cristais que levo em meus olhos
esse tempo de tudo e de nada
cintila e incendeia a calma que havia
Retornarei numa manhã fria,
mas a normalidade morna, apagada,
derreterá os cristais que levo em meus olhos
segunda-feira, março 07, 2011
Senciência
às vezes me pergunto
por que tanto me espalho por aí
ando o mundo inteiro atrás de um sentimento que já tive
tentando descolar a consciência de mim
... hoje acordei querendo ser enganado.
às vezes me pergunto
no que é que me espelho por aí
no vento, no vento,
não ser e estar,
ser e não ficar
se de verdade estou onde queria estar e faço
o que queria fazer,
com razão,
eu só queria mais coração
por que tanto me espalho por aí
ando o mundo inteiro atrás de um sentimento que já tive
tentando descolar a consciência de mim
... hoje acordei querendo ser enganado.
às vezes me pergunto
no que é que me espelho por aí
no vento, no vento,
não ser e estar,
ser e não ficar
se de verdade estou onde queria estar e faço
o que queria fazer,
com razão,
eu só queria mais coração
quinta-feira, março 03, 2011
Trincheira
vida fugaz
linha sozinha
a paz não me apraz
mergulhado em mim
vivendo eternidades de aridez
meu exército treina e espera
sem saber nem ao menos
de que lado entra na guerra
linha sozinha
a paz não me apraz
mergulhado em mim
vivendo eternidades de aridez
meu exército treina e espera
sem saber nem ao menos
de que lado entra na guerra
sexta-feira, fevereiro 25, 2011
Água mineral
Dia quente
e lindo
Envolto nessa alegria,
admito, não tive razão,
mas bem percebi que havia
uma fonte de água gelada
cristalina e doce
e fria
dentro da caixa pequena fechada
sincera e doce
e fria
Coração ainda de menino
Eu que morri e que vivo
dentro do mundo que imagino
Recuso o que emana do dia
dos sonhos felizes do ar
comungo só com o luar
que escalo na ventania
pra deixar a alma vazar
inteira
em cachoeira
e lindo
Envolto nessa alegria,
admito, não tive razão,
mas bem percebi que havia
uma fonte de água gelada
cristalina e doce
e fria
dentro da caixa pequena fechada
sincera e doce
e fria
Coração ainda de menino
Eu que morri e que vivo
dentro do mundo que imagino
Recuso o que emana do dia
dos sonhos felizes do ar
comungo só com o luar
que escalo na ventania
pra deixar a alma vazar
inteira
em cachoeira
terça-feira, fevereiro 22, 2011
Bronchitis
I still stand here wet
wishing you to float into that air of hopes again
I had devised a world in which the light of you that I smoked would never go out
And the soft texture of your skin never burnt me fingers and
chest and thought
The lonely sweet ashes into which you’d be slowly consumed could linger
by the toxic inhaling of dancing you
perfuming these lungs of mine
But when I was about to suck you in
I was left in the dark to cough alone
And light rain damned me as your fire just disappeared
wishing you to float into that air of hopes again
I had devised a world in which the light of you that I smoked would never go out
And the soft texture of your skin never burnt me fingers and
chest and thought
The lonely sweet ashes into which you’d be slowly consumed could linger
by the toxic inhaling of dancing you
perfuming these lungs of mine
But when I was about to suck you in
I was left in the dark to cough alone
And light rain damned me as your fire just disappeared
sábado, janeiro 29, 2011
quarta-feira, dezembro 22, 2010
Natimorto
de certezas
o vento que varre lá fora
não traz um grão sequer
as mãos que se estendem
se contundem, se defendem
e a vida verdadeira ocorre em ciclos silenciosos de vício
em que o coração se alimenta de mil amores platônicos
impossíveis para quem já chora lágrimas para não mais precisar chorar
e assim me amordaço até que o grito que só eu escuto me enlouqueça
o vento que varre lá fora
não traz um grão sequer
as mãos que se estendem
se contundem, se defendem
e a vida verdadeira ocorre em ciclos silenciosos de vício
em que o coração se alimenta de mil amores platônicos
impossíveis para quem já chora lágrimas para não mais precisar chorar
e assim me amordaço até que o grito que só eu escuto me enlouqueça
quinta-feira, dezembro 16, 2010
Laroyê
se nascemos à imagem de um deus
vermelho e preto me chamaram. posso
ser o movimento que te faz voar,
como balão,
ou a força que te prende no chão
ao corpo, sempre ao corpo
humano erijo-me
à terra vim, da terra
do solo pra guerra
se com ferro frio e quente feres
aceito o que tu me deres
vermelho e preto me chamaram. posso
ser o movimento que te faz voar,
como balão,
ou a força que te prende no chão
ao corpo, sempre ao corpo
humano erijo-me
à terra vim, da terra
do solo pra guerra
se com ferro frio e quente feres
aceito o que tu me deres
terça-feira, novembro 23, 2010
De volta a Sampa
à meia-noite
da minha velha torre
revejo os sonhos que finjo querer esquecer
revisito a cidade revolta
e bem hoje
em vez de se conformarem
os cidadãos resolveram apaixonar-se
a chuva inflama e entope o formigueiro frio
súbito explodem
os corações contidos em cápsulas,
bondes,
baldeações
estou perdido no labirinto
cidade violenta
em que os sonhos sequestram e fazem reféns
da minha velha torre
revejo os sonhos que finjo querer esquecer
revisito a cidade revolta
e bem hoje
em vez de se conformarem
os cidadãos resolveram apaixonar-se
a chuva inflama e entope o formigueiro frio
súbito explodem
os corações contidos em cápsulas,
bondes,
baldeações
estou perdido no labirinto
cidade violenta
em que os sonhos sequestram e fazem reféns
domingo, novembro 14, 2010
Falsa idade
o raio que gira daquela torre
encontra um observador noturno,
que recebe e devolve
os sonhos na imensidão azul
a vida
é a morte do sonho
que é a morte da vida
na cidade dos sonhadores apaixonados
só vejo a implicância elegante
o desejo de vida e morte
do papel branco ao pó cinza, ao negro,
um cinismo fatalista charmoso
destituído de charme
na noite azul e amarela da cidade da luz
talvez eu esteja errado em continuar
querendo sonhar
negando a paz, negra paz
mas às vésperas dos trinta anos
só queria que meu coração batesse mais
Paris, 14/11/2010
encontra um observador noturno,
que recebe e devolve
os sonhos na imensidão azul
a vida
é a morte do sonho
que é a morte da vida
na cidade dos sonhadores apaixonados
só vejo a implicância elegante
o desejo de vida e morte
do papel branco ao pó cinza, ao negro,
um cinismo fatalista charmoso
destituído de charme
na noite azul e amarela da cidade da luz
talvez eu esteja errado em continuar
querendo sonhar
negando a paz, negra paz
mas às vésperas dos trinta anos
só queria que meu coração batesse mais
Paris, 14/11/2010
sexta-feira, outubro 15, 2010
Teu papel
Tuas linhas, tuas tintas
são letra e palavra
são ação, imaginada
Teu excesso de vírgulas
e reticências
prejudicam a sequência
então antes que, para o descarte,
eu te amasse,
saiamos deste impasse
são letra e palavra
são ação, imaginada
Teu excesso de vírgulas
e reticências
prejudicam a sequência
então antes que, para o descarte,
eu te amasse,
saiamos deste impasse
domingo, setembro 26, 2010
quinta-feira, setembro 02, 2010
Frete
importa qual o navio?
embarca-se mercadoria
sem medo de extravio
em toda partida dada
a vida será partida
a parte será selada
o sonho, cantiga ida
o sonho, fé renovada
em portos de qualquer porte
há mares imaginários
em surtos de toda sorte
amares imaginados
embarca-se mercadoria
sem medo de extravio
em toda partida dada
a vida será partida
a parte será selada
o sonho, cantiga ida
o sonho, fé renovada
em portos de qualquer porte
há mares imaginários
em surtos de toda sorte
amares imaginados
terça-feira, agosto 17, 2010
Barco
Acampando na sala de estar
eu deixo estar
de novo
Experimentar a covardia
é um exercício
do povo
Se eu me atrevesse a atravessar
o mar de dor e mágoa que nos une
o mar de paz e água que nos separa
me levaria o barco para o tudo e para o nada
para a vida por que anseia minha alma exilada
Mas o recomeço precisa de um tropeço
eu deixo estar
de novo
Experimentar a covardia
é um exercício
do povo
Se eu me atrevesse a atravessar
o mar de dor e mágoa que nos une
o mar de paz e água que nos separa
me levaria o barco para o tudo e para o nada
para a vida por que anseia minha alma exilada
Mas o recomeço precisa de um tropeço
quinta-feira, agosto 12, 2010
Minhas janelas para o mundo
Do escuro vejo piscando cruzes,
Sirenes que vão e vem, luzes,
Não sei se emano minha solidão ou a colho da noite
Sei que estou longe, mas te penso aqui
onde a aurora de opala não te pode sentir
Não sei se emano minha solidão ou a colho da noite
Da sala vazia, sombria, vejo um porto macio
Que leva pro dia, pra longe, pro frio
E não sei se emano minha solidão ou a colho da noite
Sirenes que vão e vem, luzes,
Não sei se emano minha solidão ou a colho da noite
Sei que estou longe, mas te penso aqui
onde a aurora de opala não te pode sentir
Não sei se emano minha solidão ou a colho da noite
Da sala vazia, sombria, vejo um porto macio
Que leva pro dia, pra longe, pro frio
E não sei se emano minha solidão ou a colho da noite
quarta-feira, julho 07, 2010
Eterno ringue
a noite cai a mente vê
a paz não é fácil
como nunca será
numa sala escura fechada
meu coração cerra os punhos
e se prepara novamente
para lutar
a paz não é fácil
como nunca será
numa sala escura fechada
meu coração cerra os punhos
e se prepara novamente
para lutar
quarta-feira, junho 02, 2010
segunda-feira, maio 31, 2010
Harmattan
Essa neblina seca
transformou
o ouro é prata no céu
o sono é sede no chão
e a gente arenosa rola com o vento
esperando a chuva que alaga os sonhos
transformou
o ouro é prata no céu
o sono é sede no chão
e a gente arenosa rola com o vento
esperando a chuva que alaga os sonhos
quarta-feira, abril 28, 2010
sábado, abril 03, 2010
Crescente vermelho
ódio rasgado na curva
unha enterrada, num corte cirúrgico,
neste despertador movido a sangue
que um dia há de me fazer acordar
para a eternidade
unha enterrada, num corte cirúrgico,
neste despertador movido a sangue
que um dia há de me fazer acordar
para a eternidade
quinta-feira, março 25, 2010
Não lugar
A nuvem de poeira vem do deserto
da beira da minha costa
voa longe o coração mais perto
estive onde vira o mundo
que vaga e vive, vagabundo,
odiando o que você mais gosta
da beira da minha costa
voa longe o coração mais perto
estive onde vira o mundo
que vaga e vive, vagabundo,
odiando o que você mais gosta
quarta-feira, fevereiro 17, 2010
Comprando cigarros
Não achei que fosse tão fácil sumir, e não é. Sair de cena como fosse ao cinema ou, clássico é clássico e vice-versa, dar uma volta para espairecer e comprar um Marlboro Light no boteco da esquina.
A vida é tão interligada que está sempre mais difícil desaparecer de vez. Claro que o Brasil de hoje não é tão diferente do de antigamente, ele ainda é meio Central do Brasil. Uma ida do interior de Pernambuco à periferia do Rio de Janeiro, nas infindáveis horas do busão ou da boleia do caminhão, ainda pode desmembrar uma família, mas hoje o sumiço é muito mais difícil. Hoje sempre há um telefone celular que alguém ainda conheça, um amigo-cúmplice que eventualmente dá com a língua nos dentes, uma conta de e-mail perdida que você não teve coragem de apagar, como um cordão umbilical que ainda te une ao mundo a abandonar.
Vejam por exemplo o coitado do Belchior, só queria abandonar honestamente a mulher e os filhos, como tantos que o precederam, mas tinha o Fantástico para achá-lo no interior do Uruguai. Interior do Uruguai! Não basta mais morar na periferia ou numa favela, como o Hulk do Rio. A localização familiar já se expandiu ao Mercosul.
Claro que os anônimos contemporâneos também têm problemas. Hoje não há mais, por exemplo, a ditadura pra sumir com você; só a violência das cidades, a polícia, os bandidos. Mas isso não é sumir com qualidade. O sumiço ideal tem de ficar cristalino como sumiço, não pode parecer crime. Ou você quer sua foto estampada nas contas de luz da CEB, no intervalo do Linha Direta ou de alguma novela da Gloria Perez? Aí te acham. E a família desesperada nos seus calcanhares? Vai te deixar em paz? Muito melhor se, mesmo não tendo a capacidade de argumentar, de implorar a sua não-partida ou mesmo de ofender, a criança ranhenta ou a moça grávida saibam que você é um cafajeste, um pilantra, um covarde que simplesmente resolveu dar um restarte numa vida não-recomeçável. E é melhor pagar as contas antes de sair, para sumir sem o SPC bloquear o seu cartão escondido, para evitar credores em geral, que têm sabujos ainda mais eficientes que os das mães solteiras e encontram qualquer Zé Carioca em uma lata de lixo escondida.
Esse é o mundo de hoje. Mesmo aqui na África Ocidental, do outro lado do Atlântico, numa cidade de 2 milhões de habitantes, tenho todas essas tretas localizadoras: e-mail, orcute, feicebuque, celulares, emprego com página na internet e telefone, conta no banco e carteirinha. Mais localizável que se estivesse pregado num banco de madeira no Rei das Batidas numa quinta à tarde ou sentado no vão do MASP na véspera de Natal às 10h da manhã.
Se um dia precisar sumir, vou ter que ir ainda mais longe, para uma cidade ainda mais populosa ou remota. Apagar todos perfis e cancelar e-mails, pagar contas e, principalmente, começar a fumar. Aí vou poder tranquilamente sair para comprar, como diria o amigo Xico Sá, o king size sem filtro do abandono.
A vida é tão interligada que está sempre mais difícil desaparecer de vez. Claro que o Brasil de hoje não é tão diferente do de antigamente, ele ainda é meio Central do Brasil. Uma ida do interior de Pernambuco à periferia do Rio de Janeiro, nas infindáveis horas do busão ou da boleia do caminhão, ainda pode desmembrar uma família, mas hoje o sumiço é muito mais difícil. Hoje sempre há um telefone celular que alguém ainda conheça, um amigo-cúmplice que eventualmente dá com a língua nos dentes, uma conta de e-mail perdida que você não teve coragem de apagar, como um cordão umbilical que ainda te une ao mundo a abandonar.
Vejam por exemplo o coitado do Belchior, só queria abandonar honestamente a mulher e os filhos, como tantos que o precederam, mas tinha o Fantástico para achá-lo no interior do Uruguai. Interior do Uruguai! Não basta mais morar na periferia ou numa favela, como o Hulk do Rio. A localização familiar já se expandiu ao Mercosul.
Claro que os anônimos contemporâneos também têm problemas. Hoje não há mais, por exemplo, a ditadura pra sumir com você; só a violência das cidades, a polícia, os bandidos. Mas isso não é sumir com qualidade. O sumiço ideal tem de ficar cristalino como sumiço, não pode parecer crime. Ou você quer sua foto estampada nas contas de luz da CEB, no intervalo do Linha Direta ou de alguma novela da Gloria Perez? Aí te acham. E a família desesperada nos seus calcanhares? Vai te deixar em paz? Muito melhor se, mesmo não tendo a capacidade de argumentar, de implorar a sua não-partida ou mesmo de ofender, a criança ranhenta ou a moça grávida saibam que você é um cafajeste, um pilantra, um covarde que simplesmente resolveu dar um restarte numa vida não-recomeçável. E é melhor pagar as contas antes de sair, para sumir sem o SPC bloquear o seu cartão escondido, para evitar credores em geral, que têm sabujos ainda mais eficientes que os das mães solteiras e encontram qualquer Zé Carioca em uma lata de lixo escondida.
Esse é o mundo de hoje. Mesmo aqui na África Ocidental, do outro lado do Atlântico, numa cidade de 2 milhões de habitantes, tenho todas essas tretas localizadoras: e-mail, orcute, feicebuque, celulares, emprego com página na internet e telefone, conta no banco e carteirinha. Mais localizável que se estivesse pregado num banco de madeira no Rei das Batidas numa quinta à tarde ou sentado no vão do MASP na véspera de Natal às 10h da manhã.
Se um dia precisar sumir, vou ter que ir ainda mais longe, para uma cidade ainda mais populosa ou remota. Apagar todos perfis e cancelar e-mails, pagar contas e, principalmente, começar a fumar. Aí vou poder tranquilamente sair para comprar, como diria o amigo Xico Sá, o king size sem filtro do abandono.
segunda-feira, fevereiro 01, 2010
quinta-feira, janeiro 14, 2010
Setor hoteleiro full-time
na esse-dois perto da esquina com a dáblio-três
por baixo do eixinho-ele
debaixo da sua pele
nos vácuos da luz
a noite fuma meninas,
eonistas e insultos
nas pistas da Viadulto
é o lixo que seduz
eis o programa de voo do avião
por onde passe,
da primeira à nona classe
por baixo do eixinho-ele
debaixo da sua pele
nos vácuos da luz
a noite fuma meninas,
eonistas e insultos
nas pistas da Viadulto
é o lixo que seduz
eis o programa de voo do avião
por onde passe,
da primeira à nona classe
segunda-feira, dezembro 28, 2009
Volta à capital
um dia em que não estava fazendo nada
pintei um ponto branco bem no meio do mapa
peguei meu carro e lá fui descobrir aventuras
voar nas asas
não de ave mas do avião
monomotor
que eternamente cruza parado o meio do Brasil
batendo o mesmo ponto
sempre naquele turno
sozinho e vasto
vago e soturno
como a imensidão do céu do centro
que hoje é cinza
como o concreto desse chão que cobre a nossa terra vermelha
pintei um ponto branco bem no meio do mapa
peguei meu carro e lá fui descobrir aventuras
voar nas asas
não de ave mas do avião
monomotor
que eternamente cruza parado o meio do Brasil
batendo o mesmo ponto
sempre naquele turno
sozinho e vasto
vago e soturno
como a imensidão do céu do centro
que hoje é cinza
como o concreto desse chão que cobre a nossa terra vermelha
quinta-feira, novembro 19, 2009
Esgoto
que humano barato
que humana barata
eu sou,
pode falar!
nas águas sujas da vida
em armários cheios de sobras
sobrevivo à hecatombe
nuclear
que humana barata
eu sou,
pode falar!
nas águas sujas da vida
em armários cheios de sobras
sobrevivo à hecatombe
nuclear
quarta-feira, outubro 28, 2009
Haliêutico
suor é lágrima
no seco há sal
transborda a tristeza e a tensão
regula a temperatura do corpo
e do coração
no seco há sal
transborda a tristeza e a tensão
regula a temperatura do corpo
e do coração
segunda-feira, outubro 05, 2009
Xadrez
meu espírito é gris
quadricula-se infinitimamente
em degradê
do branco da manhã
ao preto de depois de você
quadricula-se infinitimamente
em degradê
do branco da manhã
ao preto de depois de você
sexta-feira, setembro 11, 2009
Deixa pra cá
em volta
na distância
na lembrança
-ou pensamento-,
se te arranho por dentro
vês que é preciso tempero
pra viver no desespero
poderás lançar sobre mim
o nada que, sim, mereci,
mas nunca saberás, de fato,
tudo o que senti
na distância
na lembrança
-ou pensamento-,
se te arranho por dentro
vês que é preciso tempero
pra viver no desespero
poderás lançar sobre mim
o nada que, sim, mereci,
mas nunca saberás, de fato,
tudo o que senti
segunda-feira, setembro 07, 2009
sexta-feira, agosto 28, 2009
Gergelim
só surge a vida
se não tem saída
quando fica mais seco
abre-se o sésamo desse beco
mas quando o chão que piso e suja e gruda
fica menos úmido
que esses sonhos que engulo de saliva e pó
vem chuva
abre-te, pira
semen-teiro
sê-me inteiro
sê mentira
ensimesmado,
boquiaberto
chego de errado
no tanto certo
e minha alma se faz
límpida como esse céu de nuvens
ainda não sei
ainda
se realmente estamos prontos para tanta vida
se não tem saída
quando fica mais seco
abre-se o sésamo desse beco
mas quando o chão que piso e suja e gruda
fica menos úmido
que esses sonhos que engulo de saliva e pó
vem chuva
abre-te, pira
semen-teiro
sê-me inteiro
sê mentira
ensimesmado,
boquiaberto
chego de errado
no tanto certo
e minha alma se faz
límpida como esse céu de nuvens
ainda não sei
ainda
se realmente estamos prontos para tanta vida
Azul-turquesa
perdoe-me
por querer separar-me da aurora
antes que ela se desprenda da noite
antes que ela nos desprenda da noite
antes que ela nos desprenda
vou agora.
No ardor das pálpebras
em sonhos fotofóbicos de lágrimas
nas brisas pelas quais eu voo e vago
carrego essa manhã interrompida
nas tremulantes cores desse lago
por querer separar-me da aurora
antes que ela se desprenda da noite
antes que ela nos desprenda da noite
antes que ela nos desprenda
vou agora.
No ardor das pálpebras
em sonhos fotofóbicos de lágrimas
nas brisas pelas quais eu voo e vago
carrego essa manhã interrompida
nas tremulantes cores desse lago
terça-feira, julho 07, 2009
Esse tempo
O sol que abençoa
é o mesmo que pune, magoa.
Infatigável
é seu peso na minha testa,
cancerígeno e gostoso
nesse me-render a ele,
no criar da sua sombra,
fiz-me líquido e gasoso...
o sol à-toa, imune,
é o mesmo que nos une.
Dobrar-me à sua vontade, inutilmente,
é algo que eu sempre fiz ultimamente
é o mesmo que pune, magoa.
Infatigável
é seu peso na minha testa,
cancerígeno e gostoso
nesse me-render a ele,
no criar da sua sombra,
fiz-me líquido e gasoso...
o sol à-toa, imune,
é o mesmo que nos une.
Dobrar-me à sua vontade, inutilmente,
é algo que eu sempre fiz ultimamente
segunda-feira, junho 29, 2009
Freezing halfway over the world
não me esqueça
congelado
nem me esconda
sou do agrado?
me aqueça
no microondas
congelado
nem me esconda
sou do agrado?
me aqueça
no microondas
terça-feira, junho 09, 2009
segunda-feira, junho 01, 2009
Heisenberg
Fazendo girar
o mundo
vou correndo
vou voando
meu coração bate,
depois pede
quero ter tudo pela frente
Para não ser
localizado
é preciso
velocidade
o chão traçado late,
depois cede
quero ser tudo pela frente
Para ser, em sonho, tudo,
necessito não ser nada;
sem o que me faça claro,
tuas ondas não me acham
estampado no anteparo...
o mundo
vou correndo
vou voando
meu coração bate,
depois pede
quero ter tudo pela frente
Para não ser
localizado
é preciso
velocidade
o chão traçado late,
depois cede
quero ser tudo pela frente
Para ser, em sonho, tudo,
necessito não ser nada;
sem o que me faça claro,
tuas ondas não me acham
estampado no anteparo...
quinta-feira, maio 14, 2009
Responsabilidade
Não sou o responsável
não!
Alegra-me a liberdade
da falta de resposta
da brisa largada, amável!
o mau que só inspira o bem
o com que prefere só sem
não!
Alegra-me a liberdade
da falta de resposta
da brisa largada, amável!
o mau que só inspira o bem
o com que prefere só sem
terça-feira, maio 05, 2009
Vaga Amor, Vago Amar
Quisera um amor que fosse a-mar,
um amor que não fosse vaga, que não fosse vago.
O mar há de ser sempre amaro.
Quero um a-mar,
um amor que invade e não se recolhe das calçadas, das casas, das ruas.
Quero a vida que arrebata, que afoga, que mata,
que é sim sem ser não.
Um amor que cega sem seguir
ou cobrar, no cobrir
das areias da solidão.
um amor que não fosse vaga, que não fosse vago.
O mar há de ser sempre amaro.
Quero um a-mar,
um amor que invade e não se recolhe das calçadas, das casas, das ruas.
Quero a vida que arrebata, que afoga, que mata,
que é sim sem ser não.
Um amor que cega sem seguir
ou cobrar, no cobrir
das areias da solidão.
segunda-feira, maio 04, 2009
Desfazendo-me
Toda noite contigo é dia;
Toda conversa, caminhar na prancha,
Todo sonho contigo é mancha.
Mas, se o choro me alivia,
também deprime, desloca, desmancha:
desnuda-se minha covardia.
Toda conversa, caminhar na prancha,
Todo sonho contigo é mancha.
Mas, se o choro me alivia,
também deprime, desloca, desmancha:
desnuda-se minha covardia.
quarta-feira, abril 08, 2009
Vagando
Se vago, se volto,
atrás de qualquer coisa e não de coisa qualquer,
com a mente esquecida da vaga inconstante,
não movo esse saibro com minha maré
Minha mente, de passagem,
está sempre em viagem.
Não processa
nem reflete
nunca nada
além de pressa.
Ainda assim,
gosto da leviandade que subsiste no umbigo da noite,
mas trabalho tanto o tempo,
que o retiro amargamente do dia.
Desperto, desaperto
e sou nada,
embrião de saudade calada.
Onde estive,
quando me procuráveis,
onde estava,
quando apareci?
Se quando parti eu sonhei que ficava,
e, agora que fico, só quero partir?
atrás de qualquer coisa e não de coisa qualquer,
com a mente esquecida da vaga inconstante,
não movo esse saibro com minha maré
Minha mente, de passagem,
está sempre em viagem.
Não processa
nem reflete
nunca nada
além de pressa.
Ainda assim,
gosto da leviandade que subsiste no umbigo da noite,
mas trabalho tanto o tempo,
que o retiro amargamente do dia.
Desperto, desaperto
e sou nada,
embrião de saudade calada.
Onde estive,
quando me procuráveis,
onde estava,
quando apareci?
Se quando parti eu sonhei que ficava,
e, agora que fico, só quero partir?
quinta-feira, março 05, 2009
Mudança de estado
Solidificando minhas certezas,
ao condensar a mente, cansada do voo,
deitei pelos olhos a alma liquefeita.
Sublimei os sentimentos com enjoo
e congelei a chama, que fique presa;
que o que ebule depois sujeita.
ao condensar a mente, cansada do voo,
deitei pelos olhos a alma liquefeita.
Sublimei os sentimentos com enjoo
e congelei a chama, que fique presa;
que o que ebule depois sujeita.
sábado, fevereiro 14, 2009
Atmosfera
O céu aumentou com a distância
Nas retas oblíquas de Brasília
abraça-me o vento
mas, se retribuo o carinho ao breu,
não sinto nada
sem você
esta cidade se sente como eu
abandonada
Nas retas oblíquas de Brasília
abraça-me o vento
mas, se retribuo o carinho ao breu,
não sinto nada
sem você
esta cidade se sente como eu
abandonada
quinta-feira, janeiro 22, 2009
Arqueiro de Códego-City
Tocando feito harpa
teu arco imenso
de pó vermelho e cifras
Descubro; melhor, revelo
da terra seminua
tuas caixas enfileiradas
tuas regras
tuas ruas
Revejo tua cidade invisível
do tal povo que bem sofre, não sei onde,
da flecha que te justifica e fere
das vidas que ostentas e escondes
Não causa estranheza teu papel
e o que desfiro faz mais sentido
se me cobre, quando atiro, o teu céu.
teu arco imenso
de pó vermelho e cifras
Descubro; melhor, revelo
da terra seminua
tuas caixas enfileiradas
tuas regras
tuas ruas
Revejo tua cidade invisível
do tal povo que bem sofre, não sei onde,
da flecha que te justifica e fere
das vidas que ostentas e escondes
Não causa estranheza teu papel
e o que desfiro faz mais sentido
se me cobre, quando atiro, o teu céu.
quarta-feira, janeiro 21, 2009
Resignação
Por querer ser tudo
por que não ser nada?
Apenas porto meu disfarce
e já posso tomar parte!
Que bela e convencional arte
essa de violar-se...
por que não ser nada?
Apenas porto meu disfarce
e já posso tomar parte!
Que bela e convencional arte
essa de violar-se...
domingo, janeiro 18, 2009
Hermeticamente
Denso mas fugidio
mercúrio contido no vidro
A física do calor que expande
não transborda
Tenho nas veias a prata rápida
tóxica e fluida
nas mãos, a ascensão da energia
e a combinação do que se associa mas não se confunde
Porém, se minhas duas serpentes
me tornam mensageiro dos deuses,
interpreto, apenas,
e vivo nos limites da minha mortalidade
mercúrio contido no vidro
A física do calor que expande
não transborda
Tenho nas veias a prata rápida
tóxica e fluida
nas mãos, a ascensão da energia
e a combinação do que se associa mas não se confunde
Porém, se minhas duas serpentes
me tornam mensageiro dos deuses,
interpreto, apenas,
e vivo nos limites da minha mortalidade
Bom comportamento
Noite colada nos olhos
gargalo escorrendo abaixo
penso não caber nos papéis
nos testes de atores da vida
ao fundo, isolado da hora do sono,
intuo
primeiro passo para a maturidade é deixar de frustrar-se
gargalo escorrendo abaixo
penso não caber nos papéis
nos testes de atores da vida
ao fundo, isolado da hora do sono,
intuo
primeiro passo para a maturidade é deixar de frustrar-se
sexta-feira, janeiro 16, 2009
Mordaças
Na praia, entrevi a intenção rosa
não-pano que não cobre
e esconde
Deste lado, preso, o pássaro
finge sufocar
não-pano que não cobre
e esconde
Deste lado, preso, o pássaro
finge sufocar
segunda-feira, dezembro 01, 2008
Meus parabéns
Prestes a fazer aniversário,
escrevo desejando-me felicidades,
e são muitas as minhas vontades
para essa tarde de sagitário.
Estranho alguém desejar o melhor para si,
mas isso é o que me ocorre
agora que me achego do que morre
e me afasto do que nasci.
Dos familiares quero amor,
Dos amores, compreensões quaisquer,
Dos grandes amigos, os momentos de sempre,
sempre que der.
Dos amigos distantes aquela lembrança
concreta ou abstrata,
um pensamento, um telegrama,
uma visita, uma carta,
mas que não se esqueçam desta data.
Que eu nunca alcance a perfeição,
mas nunca desista de viver;
Que a infância nunca passe,
nem o sorrir,
nem o sofrer.
Que as forças ocultas ajudem a todos
juntos
em especial.
Feliz aniversário para nós, afinal.
escrevo desejando-me felicidades,
e são muitas as minhas vontades
para essa tarde de sagitário.
Estranho alguém desejar o melhor para si,
mas isso é o que me ocorre
agora que me achego do que morre
e me afasto do que nasci.
Dos familiares quero amor,
Dos amores, compreensões quaisquer,
Dos grandes amigos, os momentos de sempre,
sempre que der.
Dos amigos distantes aquela lembrança
concreta ou abstrata,
um pensamento, um telegrama,
uma visita, uma carta,
mas que não se esqueçam desta data.
Que eu nunca alcance a perfeição,
mas nunca desista de viver;
Que a infância nunca passe,
nem o sorrir,
nem o sofrer.
Que as forças ocultas ajudem a todos
juntos
em especial.
Feliz aniversário para nós, afinal.
terça-feira, novembro 18, 2008
Escorpião
Seu rastro é perceptível, que tal?
no cheiro de enxofre cósmico,
na trilha aérea internacional
na urina dessa meia-lua,
na noite parceira de rua
a música já ouvi
levanta o astral
e canta...
o cara-de-pau
das ruas da bastilha
ao mercado de omdurman
o trem... singra pelo ar
espiando pela escotilha
no catar ou em amsterdam
ele vem, vai desembarcar
Ele pica antes de atirar
Está levando a cabo
a nossa destruição
que doce este final!
Terrível o tal diabo
do inferno astral
no cheiro de enxofre cósmico,
na trilha aérea internacional
na urina dessa meia-lua,
na noite parceira de rua
a música já ouvi
levanta o astral
e canta...
o cara-de-pau
das ruas da bastilha
ao mercado de omdurman
o trem... singra pelo ar
espiando pela escotilha
no catar ou em amsterdam
ele vem, vai desembarcar
Ele pica antes de atirar
Está levando a cabo
a nossa destruição
que doce este final!
Terrível o tal diabo
do inferno astral
domingo, novembro 02, 2008
Andarilho
Esta poeira grudou em minha pele
corro no vento para torná-la ao nada
por ora, volto para de onde vim...
Mas a terra ínfima, pulverizada,
da cor da noite não há quem desatrele,
se a poeira hoje é parte de mim.
Este vento resfriou-me de levada
um mar de pó que tanta vida propele
são faces e risos e coisas sem fim...
Pois a terra ínfima, pulverizada,
da cor da noite não há quem desatrele,
se a poeira hoje é parte de mim.
Não há eu que o movimento cancele,
ainda que a reflexão da mente em caçada
seja vaga, leviana e ruim.
Mas a terra ínfima, seca, pulverizada,
da cor da noite não há quem desatrele,
se a poeira hoje é parte de mim.
corro no vento para torná-la ao nada
por ora, volto para de onde vim...
Mas a terra ínfima, pulverizada,
da cor da noite não há quem desatrele,
se a poeira hoje é parte de mim.
Este vento resfriou-me de levada
um mar de pó que tanta vida propele
são faces e risos e coisas sem fim...
Pois a terra ínfima, pulverizada,
da cor da noite não há quem desatrele,
se a poeira hoje é parte de mim.
Não há eu que o movimento cancele,
ainda que a reflexão da mente em caçada
seja vaga, leviana e ruim.
Mas a terra ínfima, seca, pulverizada,
da cor da noite não há quem desatrele,
se a poeira hoje é parte de mim.
sexta-feira, outubro 24, 2008
Gol, o grande momento
acaricia a chute
o coração que carregava
por entre os pés
(em cada guerra que se dispute,
de armas ou travas,
fortuna ou revés
fazem amor com a relva
cortada e sem flor
e que no fundo é uma selva
de chance e de dor...)
e em simples lufada de sorte
o homem a todos trepida
instante que transborda vida
momento que inspira a morte
o coração que carregava
por entre os pés
(em cada guerra que se dispute,
de armas ou travas,
fortuna ou revés
fazem amor com a relva
cortada e sem flor
e que no fundo é uma selva
de chance e de dor...)
e em simples lufada de sorte
o homem a todos trepida
instante que transborda vida
momento que inspira a morte
terça-feira, outubro 07, 2008
Translucidez
Incomoda-me o sol, pinto de negro minhas janelas
para tentar esconder-me desde cedo
(na manhã da alma o sol sempre brilha mais)
os raios revelam os traços
as mesas não têm gavetas
O erguer do sol faz sombra sobre coisas belas
(e que coisas coleciono, rapaz)
mais que livros tenho segredos
tantos que os armários são rasos
e as camas parecem sarjetas
Vedo as portas, ponho cortinas, apago as velas
(vivo o que de vida é arremedo)
internalizo a expansão dos espaços
para que seja ignorado, tido por incapaz,
e a visibilidade não me acometa
Mas um dia eu quis ser visto, eu quis gritar,
quis mostrar que era belo,
limpo, transparente,
e vi que não era nada disso
nem era isso o que achava a gente
e pude esgoelar-me até o fim
e esgotei
enquanto caía a noite na alma
para tentar esconder-me desde cedo
(na manhã da alma o sol sempre brilha mais)
os raios revelam os traços
as mesas não têm gavetas
O erguer do sol faz sombra sobre coisas belas
(e que coisas coleciono, rapaz)
mais que livros tenho segredos
tantos que os armários são rasos
e as camas parecem sarjetas
Vedo as portas, ponho cortinas, apago as velas
(vivo o que de vida é arremedo)
internalizo a expansão dos espaços
para que seja ignorado, tido por incapaz,
e a visibilidade não me acometa
Mas um dia eu quis ser visto, eu quis gritar,
quis mostrar que era belo,
limpo, transparente,
e vi que não era nada disso
nem era isso o que achava a gente
e pude esgoelar-me até o fim
e esgotei
enquanto caía a noite na alma
quinta-feira, setembro 25, 2008
Implorar, ímpio chorar
A alma de cheiro é alma de choro,
perfuma,
permite a espuma
Largue-se inteiro, esqueça o decoro
Prostitua-
se prostre e ela é tua
perfuma,
permite a espuma
Largue-se inteiro, esqueça o decoro
Prostitua-
se prostre e ela é tua
Quero ver seus lábios me pedindo para ficar
Amor maior, do mundo voltei,
dos desvarios da vida de fora!
Mesmo sendo um tarado fugaz,
que satisfaz, mas não se demora,
quero mais a você e não nego
Aceite a chantagem que carrego,
que lhe esfrego, e farei
do retorno a você minha lei:
No mel que escorre
da cana doce chupada, lambida,
lambuze-se por sua vida
porém, antes que eu esporre,
me esgote,
e agora! E de verdade
que a felicidade
é um esporte
Se levo vida em flanada
por Áfricas quentes, Europas geladas
e Orientes médios
voltei e não quero tédio
quero uma enchente da sua saliva
e sua língua mais agressiva
que as explosões de Cabul
quero ver você toda histérica
antes de eu conquistar sua América
do Sul
dos desvarios da vida de fora!
Mesmo sendo um tarado fugaz,
que satisfaz, mas não se demora,
quero mais a você e não nego
Aceite a chantagem que carrego,
que lhe esfrego, e farei
do retorno a você minha lei:
No mel que escorre
da cana doce chupada, lambida,
lambuze-se por sua vida
porém, antes que eu esporre,
me esgote,
e agora! E de verdade
que a felicidade
é um esporte
Se levo vida em flanada
por Áfricas quentes, Europas geladas
e Orientes médios
voltei e não quero tédio
quero uma enchente da sua saliva
e sua língua mais agressiva
que as explosões de Cabul
quero ver você toda histérica
antes de eu conquistar sua América
do Sul
terça-feira, agosto 19, 2008
Hipoglicemia
Alimento-me
por sonhos de fogo-fátuo
nuvem que fosse
algodão-doce
desmanchando na boca
pouca
Não pago a fome que trago
e vês
o pranto que nutro no canto
pelo pútrido pão que retalhas
e pouco crês, e tanto falas,
que não peço,
nem falhas:
tropeço atrás das migalhas.
(e é tudo de graça!
Vivo de luz e desgraça.)
por sonhos de fogo-fátuo
nuvem que fosse
algodão-doce
desmanchando na boca
pouca
Não pago a fome que trago
e vês
o pranto que nutro no canto
pelo pútrido pão que retalhas
e pouco crês, e tanto falas,
que não peço,
nem falhas:
tropeço atrás das migalhas.
(e é tudo de graça!
Vivo de luz e desgraça.)
Que eu vede o que vós vedes
Começo e me pedes
tropeço na rede.
É começo em parede
se tropeço e me medes.
Expresso e esqueço
o apreço em excesso,
apresso, enrijeço
e mereço o sucesso.
Recomeço e pareço
travesso, confesso,
te peço, obedeço,
avesso, e cesso.
tropeço na rede.
É começo em parede
se tropeço e me medes.
Expresso e esqueço
o apreço em excesso,
apresso, enrijeço
e mereço o sucesso.
Recomeço e pareço
travesso, confesso,
te peço, obedeço,
avesso, e cesso.
sexta-feira, agosto 01, 2008
Way of life
Aos telhados do mundo,
as pedras que ainda estão no ar
por jogar
Temos a loucura que transborda das pálpebras,
que seca e funde-se à poeira e ao vento
e não nulifica por dentro
Feliz essência de vida e lágrimas!
Nossa revolução, amarrada e muda,
não precisa mais de ajuda
as pedras que ainda estão no ar
por jogar
Temos a loucura que transborda das pálpebras,
que seca e funde-se à poeira e ao vento
e não nulifica por dentro
Feliz essência de vida e lágrimas!
Nossa revolução, amarrada e muda,
não precisa mais de ajuda
quarta-feira, julho 30, 2008
Evanescer
A alma que resplandece
-a fé no nada-
é calma que evanesce
-abala montanhas-
Se sou volúvel
sou vontade
sou solúvel
sou saudade
-a fé no nada-
é calma que evanesce
-abala montanhas-
Se sou volúvel
sou vontade
sou solúvel
sou saudade
segunda-feira, julho 21, 2008
Ageometria
Não é fácil dar sentido à existência.
Pelo menos, sem saber sua direção...
Afinal, o sentido é uma propriedade associada a uma direção. Se considerarmos que uma direção pode ser representada por uma reta, cada direção pode ter dois sentidos, que indicam os dois percursos possíveis sobre o tal caminho. Por exemplo, se considerarmos a direção vertical, os dois sentidos possíveis são para cima e para baixo. Na direção do ônibus, há o sentido centro-periferia e o sentido periferia-centro. O de quem vai e o de quem vem. E na direção do que existe, há coerência?
Difícil de achar, a tal direção. Vou ou venho? Difícil dizer em que caminho corre uma vida de desvios múltiplos, de caminhos concomitantes, complementares, suplementares, paralelos, perpendiculares, em transversão...
E o módulo então? Qual o módulo, a especificação de valor de nossa existência? E que que unidade de medida usaremos, a felicidade, a bonomia, as realizações (financeiras, profissionais, genéticas ou emotivas)?
Pobres coisas que estão vivas!
Que existência sem sentido,
direção,
módulo,
medida!
A geometria
ageométrica
é geomântica
como a vida!
Vida que é confusa e triste!
Por que é que tudo existe?...
Pelo menos, sem saber sua direção...
Afinal, o sentido é uma propriedade associada a uma direção. Se considerarmos que uma direção pode ser representada por uma reta, cada direção pode ter dois sentidos, que indicam os dois percursos possíveis sobre o tal caminho. Por exemplo, se considerarmos a direção vertical, os dois sentidos possíveis são para cima e para baixo. Na direção do ônibus, há o sentido centro-periferia e o sentido periferia-centro. O de quem vai e o de quem vem. E na direção do que existe, há coerência?
Difícil de achar, a tal direção. Vou ou venho? Difícil dizer em que caminho corre uma vida de desvios múltiplos, de caminhos concomitantes, complementares, suplementares, paralelos, perpendiculares, em transversão...
E o módulo então? Qual o módulo, a especificação de valor de nossa existência? E que que unidade de medida usaremos, a felicidade, a bonomia, as realizações (financeiras, profissionais, genéticas ou emotivas)?
Pobres coisas que estão vivas!
Que existência sem sentido,
direção,
módulo,
medida!
A geometria
ageométrica
é geomântica
como a vida!
Vida que é confusa e triste!
Por que é que tudo existe?...
segunda-feira, julho 14, 2008
Cal lendária
A alma dança e desfila
faz fila
na esperança oscila
E o menino fere, confere
final a quem comporte
sorte
pontual como a morte
faz fila
na esperança oscila
E o menino fere, confere
final a quem comporte
sorte
pontual como a morte
terça-feira, julho 01, 2008
quarta-feira, junho 25, 2008
Utensílios
Tesoura
de cortar pesadelos
Agulha
que costure o fio de lágrimas
Colher
(pra adoçar as palavras)
Fé
pra parar de medir as mágoas
de cortar pesadelos
Agulha
que costure o fio de lágrimas
Colher
(pra adoçar as palavras)
Fé
pra parar de medir as mágoas
quarta-feira, junho 18, 2008
Arco-e-flecha
O sangue seco do chão
brotando por suas ruas
não-becos, calhas e luas
por vento lento
pulverulento
Por ímpeto sagitário,
que vila vã cinabrina
almeja a volta ao Atlântico?
Minha mercúria menina,
no tic-tac do erário,
tuas setas tintas de dentro
coagulam em par romântico
o virgem verde do centro.
Pó rubro, não vens em vão.
Brasília te utiliza
e a vida que paralisas
é seca, mas coração.
E sei, sinto, pelo ar,
que a cada frágil instante
esperas chuva cintilante
para pulsar...
brotando por suas ruas
não-becos, calhas e luas
por vento lento
pulverulento
Por ímpeto sagitário,
que vila vã cinabrina
almeja a volta ao Atlântico?
Minha mercúria menina,
no tic-tac do erário,
tuas setas tintas de dentro
coagulam em par romântico
o virgem verde do centro.
Pó rubro, não vens em vão.
Brasília te utiliza
e a vida que paralisas
é seca, mas coração.
E sei, sinto, pelo ar,
que a cada frágil instante
esperas chuva cintilante
para pulsar...
terça-feira, junho 10, 2008
segunda-feira, junho 09, 2008
Leve afeto
coração que brinca
coração que blefa
ele não se finca
ele só me leva
e se ele te trinca
não te deixa treva
pois tanto te enleva
que também te vinca
e se ele aposta
depois só eleva
e se ele gosta
sempre existe entrega
se não tás disposta
ele te carrega
e se ele fez bosta
você me releva?
coração que blefa
ele não se finca
ele só me leva
e se ele te trinca
não te deixa treva
pois tanto te enleva
que também te vinca
e se ele aposta
depois só eleva
e se ele gosta
sempre existe entrega
se não tás disposta
ele te carrega
e se ele fez bosta
você me releva?
sexta-feira, maio 23, 2008
Endeusando
Arbítrio retorta
saltando da alma
soprando a vida
marreta a calma
no aço da porta
e forja a saída
saltando da alma
soprando a vida
marreta a calma
no aço da porta
e forja a saída
quarta-feira, maio 14, 2008
Salvem nossas vozes!
O não-acontecimento
trouxe rimas mais impuras
perturbou as estruturas
de nosso edifício bento,
nada havendo no ar que brade
pelo nosso salvamento.
Veio vento violento
e pôs fim à voz dos covardes.
O cenário que se afigura
demonstra fragilidades,
expõe as veleidades,
ofende a literatura,
faz do caos o soberano
e mata sem avisar.
Tira do parceiro o par,
torna o divino mundano.
Sem voz que logre entoar
ante o mal a tal canção,
disso sendo anfitrião,
só vou me manifestar
silenciando, por que não,
no plano da ação no plano.
Nada há de mais humano
que aguardar intervenção...
trouxe rimas mais impuras
perturbou as estruturas
de nosso edifício bento,
nada havendo no ar que brade
pelo nosso salvamento.
Veio vento violento
e pôs fim à voz dos covardes.
O cenário que se afigura
demonstra fragilidades,
expõe as veleidades,
ofende a literatura,
faz do caos o soberano
e mata sem avisar.
Tira do parceiro o par,
torna o divino mundano.
Sem voz que logre entoar
ante o mal a tal canção,
disso sendo anfitrião,
só vou me manifestar
silenciando, por que não,
no plano da ação no plano.
Nada há de mais humano
que aguardar intervenção...
sexta-feira, maio 09, 2008
Gateando
Gorgolejo tua essência
Gazeteando em lençóis
grafamos na cama
o alfa e o gama:
É greve entre nós.
Instigo as gônadas,
galante e gracioso,
e cravo no gozo
a garra que mata
em tua pele, teu pêlo de gata
Gazeteando em lençóis
grafamos na cama
o alfa e o gama:
É greve entre nós.
Instigo as gônadas,
galante e gracioso,
e cravo no gozo
a garra que mata
em tua pele, teu pêlo de gata
sábado, maio 03, 2008
Inverno
Não trema
o frio esquenta
nem tema
o coração
falei-me
o cedo nem sempre é tarde
calei-me
do jeito que é mais covarde
o frio esquenta
nem tema
o coração
falei-me
o cedo nem sempre é tarde
calei-me
do jeito que é mais covarde
domingo, abril 27, 2008
Spleen
lick me
until I leak
spear me from the cost
unless I speak
I feel the chill
please let's not spill
spine, sponge, spear
sugar
until I leak
spear me from the cost
unless I speak
I feel the chill
please let's not spill
spine, sponge, spear
sugar
terça-feira, abril 22, 2008
Baú
Caixas enfileiradas
iluminadas
dispostas ao longo de longas linhas
largas
surdas
minhas
mudas.
Moro no ninho do pássaro em chama
da gente encaixotada
do povo bem escondido.
Há grama que não reclama
piada ainda não contada
e grito que é gemido.
E no vazio do norte-sul
da brisa livre e azul
estanco.
Com um tranco e nada mais
eis que atraca meu caixote
que por tudo e dois reais
vai ao fim da asa norte.
iluminadas
dispostas ao longo de longas linhas
largas
surdas
minhas
mudas.
Moro no ninho do pássaro em chama
da gente encaixotada
do povo bem escondido.
Há grama que não reclama
piada ainda não contada
e grito que é gemido.
E no vazio do norte-sul
da brisa livre e azul
estanco.
Com um tranco e nada mais
eis que atraca meu caixote
que por tudo e dois reais
vai ao fim da asa norte.
sexta-feira, abril 18, 2008
terça-feira, abril 15, 2008
Glacial
Planície branca
anti-ártica
de repente estanca
a estática
(in)fértil
como salitre
no alvor álgido
do alvitre
anti-ártica
de repente estanca
a estática
(in)fértil
como salitre
no alvor álgido
do alvitre
quinta-feira, março 20, 2008
Arte
Cada artista dos que somos
tem algo de inumano
inamistoso
e cada trecho que componho
transparece
nossa incapacidade de sentir
o que vem de fora
ou de dentro
de você
Cada artista dos que somos
tem algo de desumano
desonroso
estou disposto a traficar sonhos
não esquece
pegue a oportunidade de sentir
antes estou fora
agora dentro
de você
tem algo de inumano
inamistoso
e cada trecho que componho
transparece
nossa incapacidade de sentir
o que vem de fora
ou de dentro
de você
Cada artista dos que somos
tem algo de desumano
desonroso
estou disposto a traficar sonhos
não esquece
pegue a oportunidade de sentir
antes estou fora
agora dentro
de você
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
Verão
Fui buscar minha alma onde a deixei
da última vez em que não estive lá
e o cerrado trabalho me consumiu
mas a terra seminua tornou-se rio
bastou a vida o ano novo gerar
e rumo ao alegre sereno naveguei!
Patinamos na tropical neve,
a nave, a areia, a greve,
com o azul-verde-líquido
que banha os espíritos
e lava e suja (e lava)
e em nossa mente se cava
e nos forma em coração.
Se é a Memória quem vale,
fiz um calendário só de janeiros!
Um ano de risos inteiros...
da última vez em que não estive lá
e o cerrado trabalho me consumiu
mas a terra seminua tornou-se rio
bastou a vida o ano novo gerar
e rumo ao alegre sereno naveguei!
Patinamos na tropical neve,
a nave, a areia, a greve,
com o azul-verde-líquido
que banha os espíritos
e lava e suja (e lava)
e em nossa mente se cava
e nos forma em coração.
Se é a Memória quem vale,
fiz um calendário só de janeiros!
Um ano de risos inteiros...
segunda-feira, janeiro 14, 2008
Amar é criar?
Amor é, ou não,
fetiche da incompreensão?
Se querer é ter ilusões de eternidade
Eu as tive, colecionei,
E, coração:
Amor é o nome da coleção
Pois então eu que te fiz,
O que és é o que eu quis;
Vives cá em minhas brumas
E nuvens de inspiração,
Existência tens nenhuma
Fora da imaginação.
Se é assim, eu te toquei,
Mas teu corpo não é teu,
Tu que amo vive em mim.
O que a boca prometeu
Pra você baixinho assim
Pro teu corpo eu nem falei...
Holograma inteligente
Tu és outrem que mereço
Nada em ti é bem real
Esta boca às vezes mente,
Mas tu mesma eu nem conheço
E quem somos afinal?
Mas não te aborreças com isto!
Afinal, também, pra ti,
Certamente não existo...
fetiche da incompreensão?
Se querer é ter ilusões de eternidade
Eu as tive, colecionei,
E, coração:
Amor é o nome da coleção
Pois então eu que te fiz,
O que és é o que eu quis;
Vives cá em minhas brumas
E nuvens de inspiração,
Existência tens nenhuma
Fora da imaginação.
Se é assim, eu te toquei,
Mas teu corpo não é teu,
Tu que amo vive em mim.
O que a boca prometeu
Pra você baixinho assim
Pro teu corpo eu nem falei...
Holograma inteligente
Tu és outrem que mereço
Nada em ti é bem real
Esta boca às vezes mente,
Mas tu mesma eu nem conheço
E quem somos afinal?
Mas não te aborreças com isto!
Afinal, também, pra ti,
Certamente não existo...
segunda-feira, dezembro 31, 2007
domingo, dezembro 23, 2007
Verde
Desacato cristalino
no compasso
menino
sentido lato
um arregaço
nos círculos mais finos
no mundo negro dos sapatos
esperança é estardalhaço
ainda franzino
puro negro esmeraldino
no compasso
menino
sentido lato
um arregaço
nos círculos mais finos
no mundo negro dos sapatos
esperança é estardalhaço
ainda franzino
puro negro esmeraldino
quarta-feira, dezembro 12, 2007
Única voz
Desfile pela floresta
sem chocar-se
em árvore nenhuma
ou galho ou moita
ou presa afoita
ou porção de bruma
e trespassar-se
será sua grande festa!
Seja inerte ao passado
seja flecha disparada
rumo ao ignorado
pois a vida é tudo e nada...
sem chocar-se
em árvore nenhuma
ou galho ou moita
ou presa afoita
ou porção de bruma
e trespassar-se
será sua grande festa!
Seja inerte ao passado
seja flecha disparada
rumo ao ignorado
pois a vida é tudo e nada...
segunda-feira, novembro 12, 2007
Soneto do fracasso de público
Tenho por testemunha o nada em cio
o nada multiplicado ao relento
que, ainda que vão, vive em aumento
e se reproduz por meses a fio.
Meus escritos são vento macio
represado em meu apartamento
e não merecem desapontamento
ou loa, inverno ou estio.
Jogando palavras no vazio,
no compulsivo preenchimento
de meu vácuo pensamento,
meu oco é muito mais frio,
se nem te causo arrepio
no despejar de um tormento.
o nada multiplicado ao relento
que, ainda que vão, vive em aumento
e se reproduz por meses a fio.
Meus escritos são vento macio
represado em meu apartamento
e não merecem desapontamento
ou loa, inverno ou estio.
Jogando palavras no vazio,
no compulsivo preenchimento
de meu vácuo pensamento,
meu oco é muito mais frio,
se nem te causo arrepio
no despejar de um tormento.
quinta-feira, novembro 01, 2007
Liber
Inflei meu peito sofrido
busquei o gargalo gelado
para escorrer...
da long-neck
mas sem pileque
Resta saber...
se a ciência da dor
vai entender
busquei o gargalo gelado
para escorrer...
da long-neck
mas sem pileque
Resta saber...
se a ciência da dor
vai entender
terça-feira, outubro 16, 2007
A cordilheira
Se a totalidade do sereno
está no terreno do impossível,
o invisível torna-se o pleno.
Ater-se a uma vida corriqueira,
sem dar as caras ao mundo, na média,
já que a vida-cordilheira
está fadada à tragédia?
Ou perder-se em pensamentos,
sonhando silente em pé,
com o que podia estar sendo
agora que não mais é?
Aprecie o privilégio
de uma mente indesperta:
o que se opõe ao tédio,
no saber, é a descoberta!
Então viva pelo avesso
e perceba
que o melhor do sonho é o começo
está no terreno do impossível,
o invisível torna-se o pleno.
Ater-se a uma vida corriqueira,
sem dar as caras ao mundo, na média,
já que a vida-cordilheira
está fadada à tragédia?
Ou perder-se em pensamentos,
sonhando silente em pé,
com o que podia estar sendo
agora que não mais é?
Aprecie o privilégio
de uma mente indesperta:
o que se opõe ao tédio,
no saber, é a descoberta!
Então viva pelo avesso
e perceba
que o melhor do sonho é o começo
Sufoco
Silencie o amor
sufoque o soluço
segure o espirro
espasmo de dor
A estrela que nasce contida
se debate
no embate-contrário da vida
A palavra doce é retida
angústia secreta
no andor
o grito engolido
em flor
e a morte súbita
decúbita
se erige
estoura na mente
o rio não chorado
estoura no peito
o berro travado
de todos os sonhos que nutria
sobrou-lhe a asfixia
sufoque o soluço
segure o espirro
espasmo de dor
A estrela que nasce contida
se debate
no embate-contrário da vida
A palavra doce é retida
angústia secreta
no andor
o grito engolido
em flor
e a morte súbita
decúbita
se erige
estoura na mente
o rio não chorado
estoura no peito
o berro travado
de todos os sonhos que nutria
sobrou-lhe a asfixia
domingo, setembro 16, 2007
Descarrilhando
-"Não percebeu que o espírito do homem ia talvez descarrilhar" (Machado de Assis, "Quincas Borba")
---
Andei achando que me encontrei
despistei o que desgovernou
Saí-me do cerne do que sou
para ser do seio do que sei.
Pois do pai eu sou sempre o filho
e em minha sina não humilho, mas malho
e nos trilhos do trem eu trabalho
pra voar sem barreira ou anilho.
Se, com as raivas da rinha, não ralho
e, no desvio das vias, vacilo
e não calo e nem falo e nem puxo estrilbilho,
do talho da torpe moral tenho o estalo:
sei que o trem fere o filho
com a frente que sai do trilho
---
Andei achando que me encontrei
despistei o que desgovernou
Saí-me do cerne do que sou
para ser do seio do que sei.
Pois do pai eu sou sempre o filho
e em minha sina não humilho, mas malho
e nos trilhos do trem eu trabalho
pra voar sem barreira ou anilho.
Se, com as raivas da rinha, não ralho
e, no desvio das vias, vacilo
e não calo e nem falo e nem puxo estrilbilho,
do talho da torpe moral tenho o estalo:
sei que o trem fere o filho
com a frente que sai do trilho
quinta-feira, agosto 16, 2007
Má inflluência
Tenho andado tão certinho
um homem perfeito, assim tão direito
que dorme na linha e sempre cedinho
na batalha diuturna de escritório
E na vida minha de burocrata
rotina paulatina da sala ao mictório
nos corredores verde-grises do governo federal
cruzando a soberba vã dos diplomatas
durante um ploc-ploc qualquer dos sapatos brilhantes
após conversas e pessoas insípidas de café
me sinto travesso, prevejo um tropeço
ainda que por um instante
a um gênio qualquer
eu peço um desejo
e logo te vejo
menina-mulher.
tu surges assim triunfante
não me reconheço, me ponho do avesso
puxo-te um papo sem topo nem pé
e a vida rebola com a graça de antes
vêm-me ânsias imensas e exatas
vou te raptar desse dia banal
ofertando meu amor provisório
sem dramas e sem serenata
sem falsas promessas de mau parlatório
Eu digo o que quero... tua mente adivinho!
Teu jogo com jeito de êxtase aceito
e gozo gemendo baixinho
um homem perfeito, assim tão direito
que dorme na linha e sempre cedinho
na batalha diuturna de escritório
E na vida minha de burocrata
rotina paulatina da sala ao mictório
nos corredores verde-grises do governo federal
cruzando a soberba vã dos diplomatas
durante um ploc-ploc qualquer dos sapatos brilhantes
após conversas e pessoas insípidas de café
me sinto travesso, prevejo um tropeço
ainda que por um instante
a um gênio qualquer
eu peço um desejo
e logo te vejo
menina-mulher.
tu surges assim triunfante
não me reconheço, me ponho do avesso
puxo-te um papo sem topo nem pé
e a vida rebola com a graça de antes
vêm-me ânsias imensas e exatas
vou te raptar desse dia banal
ofertando meu amor provisório
sem dramas e sem serenata
sem falsas promessas de mau parlatório
Eu digo o que quero... tua mente adivinho!
Teu jogo com jeito de êxtase aceito
e gozo gemendo baixinho
quinta-feira, agosto 02, 2007
Eixão
seis vias que vão e vêm
se os dias em vão me vêem
vai comigo lá em cima
e volta
ventando?
no eterno azul
a fluidez do ar seco me escapa
até dezesseis no teu mapa
meu norte é teu sul
sou radar que te busca
na freada brusca
se os dias em vão me vêem
vai comigo lá em cima
e volta
ventando?
no eterno azul
a fluidez do ar seco me escapa
até dezesseis no teu mapa
meu norte é teu sul
sou radar que te busca
na freada brusca
terça-feira, julho 10, 2007
Sagitário
A flecha disparada rumo ao ignorado
voa voa voa voa
os cascos sorvem energia telúrica
a mente devaneia sob a inconstância
no meio, a raiva do fogo queima
velha alma combure
sem rancor
e do calor
vem a ânsia
de quebrar o ovo e buscar o novo
sempre de novo
pois na roda mutante
nada vai mais de um instante
e se não sei o que acerto,
se acerto, se é certo,
só sei que mudar é mais importante
Quem não explora atrás da esperança
nem se arrisca,
não vive criança
No céu
minha seta conquista a distância,
a estrela pisca
transforma a lembrança
Na lua
não mente o que sente
o coração:
com paixão não há compaixão.
Se, mudo, mudo de ti assim,
perdoa-me,
componha-te.
Queixas não ouvirás de mim.
voa voa voa voa
os cascos sorvem energia telúrica
a mente devaneia sob a inconstância
no meio, a raiva do fogo queima
velha alma combure
sem rancor
e do calor
vem a ânsia
de quebrar o ovo e buscar o novo
sempre de novo
pois na roda mutante
nada vai mais de um instante
e se não sei o que acerto,
se acerto, se é certo,
só sei que mudar é mais importante
Quem não explora atrás da esperança
nem se arrisca,
não vive criança
No céu
minha seta conquista a distância,
a estrela pisca
transforma a lembrança
Na lua
não mente o que sente
o coração:
com paixão não há compaixão.
Se, mudo, mudo de ti assim,
perdoa-me,
componha-te.
Queixas não ouvirás de mim.
segunda-feira, junho 11, 2007
Joystick
Te vejo no tédio:
remédio.
O fósforo habito...
palito?
Do corpo sou ramo,
te inflamo...
Se falta a faísca,
me risca!
remédio.
O fósforo habito...
palito?
Do corpo sou ramo,
te inflamo...
Se falta a faísca,
me risca!
domingo, maio 06, 2007
A vida como ela não deve ser
Homenagem ao gênio rodrigueano instalado em nossa hipocrisia cotidiana.
A ciumenta
---
Ao ver com ela uma cena louca de perda e morte no cinema, o rapaz começou a pensar e perguntou, de repente e despretensiosamente:
- E se a gente terminasse? Você ia também querer me matar?
- Sim, por que não? Hehehehe...
- Não, estou falando sério? E se a gente terminasse?
- Por que, você quer terminar comigo?
- Não é isso.
- Então por que essa pergunta cretina? Faz alguma diferença?
- ...
Ele não respondeu, mas a verdade é que fazia. Queria saber, não obstante a amasse loucamente e nunca tivesse pensado em deixá-la, se continuava no domínio do livre arbítrio ou estava preso ao compromisso.
---
A perseguição
Até aquele dia, o rapaz tinha vivido na mais absoluta harmonia com Suzete. A jovem era bem-huumorada, não implicava com nada, nem com a sempre suspeita combinação de futebol, cerveja e amigos desacompanhados que Malaquias se reservava às quartas-feiras. Ele, bem apessoado, até se incomodava com a falta de ciúmes da pequena. A seu amigo mais próximo, Genésio, confidenciava: "Acho que ela não gosta de mim, nem se importa quando passo com ela na rua e as outras me comem com os olhos!"
No entanto, naquela noite, no cinema, ele viu nela uma fagulha de senso de pertencimento: era o tal ciúme mesmo, um medo descabido do fim. E aquilo o perturbou. Suzete continuava a se comportar como sempre, permitindo-lhe um desprendimento que beirava o inusual. Não se importava nem com a proximidade constante entre Malaquias e amigas bonitas. Ainda assim, o rapaz começou a achar que a namorada mandava vigiar cada passo seu.
Os dias se passaram e agonia foi crescendo. Qualquer brincadeira da mulher no sentido de mostrar um ciúme lúdico punha-o apavorado.
- Minha pequena me persegue, é o cão!, dizia a Genésio. Olha feio para todas as minhas amigas!
- Que nada, rapaz, ela só pensa em ti! E nem ralha com o teu futebol, nem quando você chega bêbado na casa dela, com cheiro de pinga...
- Pois é! Alguma coisa tem aí, te digo! Aposto que ela manda alguém me seguir!
---
Desfecho inesperado
Meses depois, Malaquias já tinha hábitos um tanto heterodoxos. Saía de casa em horários escusos e disfarçado, e percorria trajetos despistantes. Como não descobrisse nada de diferente no temepramento da namorada, arrumou uma amante, só para ver se Suzete o vigiava. Com a nova pequena, uma feiazinha chamada Isabel, tornava-se cada vez mais descarado. Uma vez foi com ela ao cinema da cidadezinha de interior, na frente de todas as fofoqueiras, só para ver o resultado. E Suzete nada dizia, com o que ele asseverava: "Aí tem coisa! Ela me vigia, deve ter vídeos, fotos, eta diabo ciumento!"
Um dia, irritou-se, foi com Isabel à casa de Suzete e perguntou:
- Escute, você andou ouvindo que ando saindo com Isabel?
- Ouvi sim, meu amor, mas é tudo intriga desse povinho maldoso! Te amo mais que tudo, confio em você! Isabel é só uma amiga, não é?
- Mas como é falsa! Disfarça esse teu ciúme agora, disfarça!
E beijou a boca de Isabel na frente da namorada, do sogro, da prima deficiente. Foi escorraçado sob vassouradas da tia fofoqueira. Só então se deu conta da besteira que tinha feito, do relcaionamento perfeito que tinha destruído frivolamente, desde aquela noite no cinema.
---
O cinema e o burro
Mudou-se da cidade com Isabel. No dia em que soube, por um primo maldoso, que Suzete havia se casado com seu antigo melhor amigo, Genésio, foi com a ex-amante ao cinema ver um musical.
Ouvia aquelas canções, poemas sonoros, com os olhos marejados e a milhares de quilômetros. A mão que acariciava era outra, mas nem parecia. Ao pensar na pequena que perdeu, uma lágrima rolou em seu rosto. No entanto, de súbito mudou de idéia: pensou em Genésio e ficou com raiva.
- A culpa foi desse cara, agora eu vejo. Era um filho-da-puta mesmo. Estava de olho nela e inventou que a pequena era ciumenta só pra roubá-la de mim.
Isabel, conformada com o homem burro e bonito que tinha arranjado, limitou-se a mandá-lo ficar quieto, para que não atrapalhasse o filme.
---
Conto escrito em 02.05.07
A ciumenta
---
Ao ver com ela uma cena louca de perda e morte no cinema, o rapaz começou a pensar e perguntou, de repente e despretensiosamente:
- E se a gente terminasse? Você ia também querer me matar?
- Sim, por que não? Hehehehe...
- Não, estou falando sério? E se a gente terminasse?
- Por que, você quer terminar comigo?
- Não é isso.
- Então por que essa pergunta cretina? Faz alguma diferença?
- ...
Ele não respondeu, mas a verdade é que fazia. Queria saber, não obstante a amasse loucamente e nunca tivesse pensado em deixá-la, se continuava no domínio do livre arbítrio ou estava preso ao compromisso.
---
A perseguição
Até aquele dia, o rapaz tinha vivido na mais absoluta harmonia com Suzete. A jovem era bem-huumorada, não implicava com nada, nem com a sempre suspeita combinação de futebol, cerveja e amigos desacompanhados que Malaquias se reservava às quartas-feiras. Ele, bem apessoado, até se incomodava com a falta de ciúmes da pequena. A seu amigo mais próximo, Genésio, confidenciava: "Acho que ela não gosta de mim, nem se importa quando passo com ela na rua e as outras me comem com os olhos!"
No entanto, naquela noite, no cinema, ele viu nela uma fagulha de senso de pertencimento: era o tal ciúme mesmo, um medo descabido do fim. E aquilo o perturbou. Suzete continuava a se comportar como sempre, permitindo-lhe um desprendimento que beirava o inusual. Não se importava nem com a proximidade constante entre Malaquias e amigas bonitas. Ainda assim, o rapaz começou a achar que a namorada mandava vigiar cada passo seu.
Os dias se passaram e agonia foi crescendo. Qualquer brincadeira da mulher no sentido de mostrar um ciúme lúdico punha-o apavorado.
- Minha pequena me persegue, é o cão!, dizia a Genésio. Olha feio para todas as minhas amigas!
- Que nada, rapaz, ela só pensa em ti! E nem ralha com o teu futebol, nem quando você chega bêbado na casa dela, com cheiro de pinga...
- Pois é! Alguma coisa tem aí, te digo! Aposto que ela manda alguém me seguir!
---
Desfecho inesperado
Meses depois, Malaquias já tinha hábitos um tanto heterodoxos. Saía de casa em horários escusos e disfarçado, e percorria trajetos despistantes. Como não descobrisse nada de diferente no temepramento da namorada, arrumou uma amante, só para ver se Suzete o vigiava. Com a nova pequena, uma feiazinha chamada Isabel, tornava-se cada vez mais descarado. Uma vez foi com ela ao cinema da cidadezinha de interior, na frente de todas as fofoqueiras, só para ver o resultado. E Suzete nada dizia, com o que ele asseverava: "Aí tem coisa! Ela me vigia, deve ter vídeos, fotos, eta diabo ciumento!"
Um dia, irritou-se, foi com Isabel à casa de Suzete e perguntou:
- Escute, você andou ouvindo que ando saindo com Isabel?
- Ouvi sim, meu amor, mas é tudo intriga desse povinho maldoso! Te amo mais que tudo, confio em você! Isabel é só uma amiga, não é?
- Mas como é falsa! Disfarça esse teu ciúme agora, disfarça!
E beijou a boca de Isabel na frente da namorada, do sogro, da prima deficiente. Foi escorraçado sob vassouradas da tia fofoqueira. Só então se deu conta da besteira que tinha feito, do relcaionamento perfeito que tinha destruído frivolamente, desde aquela noite no cinema.
---
O cinema e o burro
Mudou-se da cidade com Isabel. No dia em que soube, por um primo maldoso, que Suzete havia se casado com seu antigo melhor amigo, Genésio, foi com a ex-amante ao cinema ver um musical.
Ouvia aquelas canções, poemas sonoros, com os olhos marejados e a milhares de quilômetros. A mão que acariciava era outra, mas nem parecia. Ao pensar na pequena que perdeu, uma lágrima rolou em seu rosto. No entanto, de súbito mudou de idéia: pensou em Genésio e ficou com raiva.
- A culpa foi desse cara, agora eu vejo. Era um filho-da-puta mesmo. Estava de olho nela e inventou que a pequena era ciumenta só pra roubá-la de mim.
Isabel, conformada com o homem burro e bonito que tinha arranjado, limitou-se a mandá-lo ficar quieto, para que não atrapalhasse o filme.
---
Conto escrito em 02.05.07
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