sexta-feira, agosto 28, 2009

Gergelim

só surge a vida
se não tem saída
quando fica mais seco
abre-se o sésamo desse beco

mas quando o chão que piso e suja e gruda
fica menos úmido
que esses sonhos que engulo de saliva e pó
vem chuva

abre-te, pira
semen-teiro
sê-me inteiro
sê mentira

ensimesmado,
boquiaberto
chego de errado
no tanto certo

e minha alma se faz
límpida como esse céu de nuvens

ainda não sei
ainda
se realmente estamos prontos para tanta vida

Azul-turquesa

perdoe-me
por querer separar-me da aurora
antes que ela se desprenda da noite
antes que ela nos desprenda da noite
antes que ela nos desprenda

vou agora.

No ardor das pálpebras
em sonhos fotofóbicos de lágrimas
nas brisas pelas quais eu voo e vago
carrego essa manhã interrompida
nas tremulantes cores desse lago

terça-feira, julho 07, 2009

Esse tempo

O sol que abençoa
é o mesmo que pune, magoa.

Infatigável
é seu peso na minha testa,
cancerígeno e gostoso

nesse me-render a ele,
no criar da sua sombra,
fiz-me líquido e gasoso...

o sol à-toa, imune,
é o mesmo que nos une.

Dobrar-me à sua vontade, inutilmente,
é algo que eu sempre fiz ultimamente

segunda-feira, junho 29, 2009

Freezing halfway over the world

não me esqueça
congelado
nem me esconda

sou do agrado?
me aqueça
no microondas

Óleo verde

mar de areia
a banda verde
incendeia

sobrevivo,
seco como
lábios líbios

terça-feira, junho 09, 2009

Partida

Aberta a porta
meu capacho é pesar, é pranto, é pó
é parêntese

segunda-feira, junho 01, 2009

Heisenberg

Fazendo girar
o mundo
vou correndo
vou voando

meu coração bate,
depois pede
quero ter tudo pela frente

Para não ser
localizado
é preciso
velocidade

o chão traçado late,
depois cede
quero ser tudo pela frente

Para ser, em sonho, tudo,
necessito não ser nada;
sem o que me faça claro,
tuas ondas não me acham
estampado no anteparo...

quinta-feira, maio 14, 2009

Responsabilidade

Não sou o responsável
não!
Alegra-me a liberdade
da falta de resposta
da brisa largada, amável!

o mau que só inspira o bem
o com que prefere só sem

terça-feira, maio 05, 2009

Vaga Amor, Vago Amar

Quisera um amor que fosse a-mar,
um amor que não fosse vaga, que não fosse vago.
O mar há de ser sempre amaro.

Quero um a-mar,
um amor que invade e não se recolhe das calçadas, das casas, das ruas.
Quero a vida que arrebata, que afoga, que mata,
que é sim sem ser não.

Um amor que cega sem seguir
ou cobrar, no cobrir
das areias da solidão.

segunda-feira, maio 04, 2009

Desfazendo-me

Toda noite contigo é dia;
Toda conversa, caminhar na prancha,
Todo sonho contigo é mancha.

Mas, se o choro me alivia,
também deprime, desloca, desmancha:
desnuda-se minha covardia.

quarta-feira, abril 08, 2009

Vagando

Se vago, se volto,
atrás de qualquer coisa e não de coisa qualquer,
com a mente esquecida da vaga inconstante,
não movo esse saibro com minha maré

Minha mente, de passagem,
está sempre em viagem.
Não processa
nem reflete
nunca nada
além de pressa.

Ainda assim,
gosto da leviandade que subsiste no umbigo da noite,
mas trabalho tanto o tempo,
que o retiro amargamente do dia.
Desperto, desaperto
e sou nada,
embrião de saudade calada.

Onde estive,
quando me procuráveis,
onde estava,
quando apareci?

Se quando parti eu sonhei que ficava,
e, agora que fico, só quero partir?

quinta-feira, março 05, 2009

Extemporânea

Neste momento, o que sei é que
só compartilhamos a presença onisciente da noite

Mudança de estado

Solidificando minhas certezas,
ao condensar a mente, cansada do voo,
deitei pelos olhos a alma liquefeita.

Sublimei os sentimentos com enjoo
e congelei a chama, que fique presa;
que o que ebule depois sujeita.

sábado, fevereiro 14, 2009

Atmosfera

O céu aumentou com a distância

Nas retas oblíquas de Brasília
abraça-me o vento
mas, se retribuo o carinho ao breu,
não sinto nada

sem você
esta cidade se sente como eu
abandonada

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Arqueiro de Códego-City

Tocando feito harpa
teu arco imenso
de pó vermelho e cifras

Descubro; melhor, revelo
da terra seminua
tuas caixas enfileiradas
tuas regras
tuas ruas

Revejo tua cidade invisível
do tal povo que bem sofre, não sei onde,
da flecha que te justifica e fere
das vidas que ostentas e escondes

Não causa estranheza teu papel
e o que desfiro faz mais sentido
se me cobre, quando atiro, o teu céu.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Burocracia

Documentos secretos
não comente
do cu
mentes
se retos
ou não

Resignação

Por querer ser tudo
por que não ser nada?

Apenas porto meu disfarce
e já posso tomar parte!

Que bela e convencional arte
essa de violar-se...

domingo, janeiro 18, 2009

Hermeticamente

Denso mas fugidio
mercúrio contido no vidro

A física do calor que expande
não transborda

Tenho nas veias a prata rápida
tóxica e fluida
nas mãos, a ascensão da energia
e a combinação do que se associa mas não se confunde

Porém, se minhas duas serpentes
me tornam mensageiro dos deuses,
interpreto, apenas,
e vivo nos limites da minha mortalidade

Bom comportamento

Noite colada nos olhos
gargalo escorrendo abaixo

penso não caber nos papéis
nos testes de atores da vida

ao fundo, isolado da hora do sono,
intuo
primeiro passo para a maturidade é deixar de frustrar-se

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Mordaças

Na praia, entrevi a intenção rosa
não-pano que não cobre
e esconde

Deste lado, preso, o pássaro
finge sufocar