segunda-feira, dezembro 28, 2009

Volta à capital

um dia em que não estava fazendo nada
pintei um ponto branco bem no meio do mapa
peguei meu carro e lá fui descobrir aventuras
voar nas asas
não de ave mas do avião
monomotor
que eternamente cruza parado o meio do Brasil
batendo o mesmo ponto
sempre naquele turno
sozinho e vasto
vago e soturno
como a imensidão do céu do centro

que hoje é cinza
como o concreto desse chão que cobre a nossa terra vermelha

quinta-feira, novembro 19, 2009

Esgoto

que humano barato
que humana barata
eu sou,
pode falar!

nas águas sujas da vida
em armários cheios de sobras
sobrevivo à hecatombe
nuclear

quarta-feira, outubro 28, 2009

Haliêutico

suor é lágrima
no seco há sal

transborda a tristeza e a tensão
regula a temperatura do corpo
e do coração

segunda-feira, outubro 05, 2009

Xadrez

meu espírito é gris
quadricula-se infinitimamente
em degradê

do branco da manhã
ao preto de depois de você

sexta-feira, setembro 11, 2009

Deixa pra cá

em volta
na distância
na lembrança
-ou pensamento-,

se te arranho por dentro
vês que é preciso tempero
pra viver no desespero

poderás lançar sobre mim
o nada que, sim, mereci,
mas nunca saberás, de fato,
tudo o que senti

segunda-feira, setembro 07, 2009

Do contra

nesse vento
nada gruda
nessa vida
nada fica
isso é lento
nada muda
e a ferida,
calcifica?

sexta-feira, agosto 28, 2009

Gergelim

só surge a vida
se não tem saída
quando fica mais seco
abre-se o sésamo desse beco

mas quando o chão que piso e suja e gruda
fica menos úmido
que esses sonhos que engulo de saliva e pó
vem chuva

abre-te, pira
semen-teiro
sê-me inteiro
sê mentira

ensimesmado,
boquiaberto
chego de errado
no tanto certo

e minha alma se faz
límpida como esse céu de nuvens

ainda não sei
ainda
se realmente estamos prontos para tanta vida

Azul-turquesa

perdoe-me
por querer separar-me da aurora
antes que ela se desprenda da noite
antes que ela nos desprenda da noite
antes que ela nos desprenda

vou agora.

No ardor das pálpebras
em sonhos fotofóbicos de lágrimas
nas brisas pelas quais eu voo e vago
carrego essa manhã interrompida
nas tremulantes cores desse lago

terça-feira, julho 07, 2009

Esse tempo

O sol que abençoa
é o mesmo que pune, magoa.

Infatigável
é seu peso na minha testa,
cancerígeno e gostoso

nesse me-render a ele,
no criar da sua sombra,
fiz-me líquido e gasoso...

o sol à-toa, imune,
é o mesmo que nos une.

Dobrar-me à sua vontade, inutilmente,
é algo que eu sempre fiz ultimamente

segunda-feira, junho 29, 2009

Freezing halfway over the world

não me esqueça
congelado
nem me esconda

sou do agrado?
me aqueça
no microondas

Óleo verde

mar de areia
a banda verde
incendeia

sobrevivo,
seco como
lábios líbios

terça-feira, junho 09, 2009

Partida

Aberta a porta
meu capacho é pesar, é pranto, é pó
é parêntese

segunda-feira, junho 01, 2009

Heisenberg

Fazendo girar
o mundo
vou correndo
vou voando

meu coração bate,
depois pede
quero ter tudo pela frente

Para não ser
localizado
é preciso
velocidade

o chão traçado late,
depois cede
quero ser tudo pela frente

Para ser, em sonho, tudo,
necessito não ser nada;
sem o que me faça claro,
tuas ondas não me acham
estampado no anteparo...

quinta-feira, maio 14, 2009

Responsabilidade

Não sou o responsável
não!
Alegra-me a liberdade
da falta de resposta
da brisa largada, amável!

o mau que só inspira o bem
o com que prefere só sem

terça-feira, maio 05, 2009

Vaga Amor, Vago Amar

Quisera um amor que fosse a-mar,
um amor que não fosse vaga, que não fosse vago.
O mar há de ser sempre amaro.

Quero um a-mar,
um amor que invade e não se recolhe das calçadas, das casas, das ruas.
Quero a vida que arrebata, que afoga, que mata,
que é sim sem ser não.

Um amor que cega sem seguir
ou cobrar, no cobrir
das areias da solidão.

segunda-feira, maio 04, 2009

Desfazendo-me

Toda noite contigo é dia;
Toda conversa, caminhar na prancha,
Todo sonho contigo é mancha.

Mas, se o choro me alivia,
também deprime, desloca, desmancha:
desnuda-se minha covardia.

quarta-feira, abril 08, 2009

Vagando

Se vago, se volto,
atrás de qualquer coisa e não de coisa qualquer,
com a mente esquecida da vaga inconstante,
não movo esse saibro com minha maré

Minha mente, de passagem,
está sempre em viagem.
Não processa
nem reflete
nunca nada
além de pressa.

Ainda assim,
gosto da leviandade que subsiste no umbigo da noite,
mas trabalho tanto o tempo,
que o retiro amargamente do dia.
Desperto, desaperto
e sou nada,
embrião de saudade calada.

Onde estive,
quando me procuráveis,
onde estava,
quando apareci?

Se quando parti eu sonhei que ficava,
e, agora que fico, só quero partir?

quinta-feira, março 05, 2009

Extemporânea

Neste momento, o que sei é que
só compartilhamos a presença onisciente da noite

Mudança de estado

Solidificando minhas certezas,
ao condensar a mente, cansada do voo,
deitei pelos olhos a alma liquefeita.

Sublimei os sentimentos com enjoo
e congelei a chama, que fique presa;
que o que ebule depois sujeita.

sábado, fevereiro 14, 2009

Atmosfera

O céu aumentou com a distância

Nas retas oblíquas de Brasília
abraça-me o vento
mas, se retribuo o carinho ao breu,
não sinto nada

sem você
esta cidade se sente como eu
abandonada