terça-feira, outubro 16, 2007

A cordilheira

Se a totalidade do sereno
está no terreno do impossível,
o invisível torna-se o pleno.

Ater-se a uma vida corriqueira,
sem dar as caras ao mundo, na média,
já que a vida-cordilheira
está fadada à tragédia?

Ou perder-se em pensamentos,
sonhando silente em pé,
com o que podia estar sendo
agora que não mais é?

Aprecie o privilégio
de uma mente indesperta:
o que se opõe ao tédio,
no saber, é a descoberta!

Então viva pelo avesso
e perceba
que o melhor do sonho é o começo

Sufoco

Silencie o amor
sufoque o soluço
segure o espirro
espasmo de dor

A estrela que nasce contida
se debate
no embate-contrário da vida

A palavra doce é retida

angústia secreta
no andor
o grito engolido
em flor

e a morte súbita
decúbita
se erige

estoura na mente
o rio não chorado
estoura no peito
o berro travado

de todos os sonhos que nutria
sobrou-lhe a asfixia

domingo, setembro 16, 2007

Descarrilhando

-"Não percebeu que o espírito do homem ia talvez descarrilhar" (Machado de Assis, "Quincas Borba")

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Andei achando que me encontrei
despistei o que desgovernou
Saí-me do cerne do que sou
para ser do seio do que sei.

Pois do pai eu sou sempre o filho
e em minha sina não humilho, mas malho
e nos trilhos do trem eu trabalho
pra voar sem barreira ou anilho.

Se, com as raivas da rinha, não ralho
e, no desvio das vias, vacilo
e não calo e nem falo e nem puxo estrilbilho,
do talho da torpe moral tenho o estalo:

sei que o trem fere o filho
com a frente que sai do trilho

quinta-feira, agosto 16, 2007

Má inflluência

Tenho andado tão certinho
um homem perfeito, assim tão direito
que dorme na linha e sempre cedinho
na batalha diuturna de escritório

E na vida minha de burocrata
rotina paulatina da sala ao mictório
nos corredores verde-grises do governo federal
cruzando a soberba vã dos diplomatas
durante um ploc-ploc qualquer dos sapatos brilhantes
após conversas e pessoas insípidas de café
me sinto travesso, prevejo um tropeço
ainda que por um instante

a um gênio qualquer
eu peço um desejo
e logo te vejo
menina-mulher.

tu surges assim triunfante
não me reconheço, me ponho do avesso
puxo-te um papo sem topo nem pé
e a vida rebola com a graça de antes
vêm-me ânsias imensas e exatas
vou te raptar desse dia banal
ofertando meu amor provisório
sem dramas e sem serenata

sem falsas promessas de mau parlatório
Eu digo o que quero... tua mente adivinho!
Teu jogo com jeito de êxtase aceito
e gozo gemendo baixinho

quinta-feira, agosto 02, 2007

Eixão

seis vias que vão e vêm
se os dias em vão me vêem
vai comigo lá em cima
e volta
ventando?

no eterno azul
a fluidez do ar seco me escapa

até dezesseis no teu mapa
meu norte é teu sul

sou radar que te busca
na freada brusca

terça-feira, julho 10, 2007

Sagitário

A flecha disparada rumo ao ignorado
voa voa voa voa

os cascos sorvem energia telúrica
a mente devaneia sob a inconstância

no meio, a raiva do fogo queima
velha alma combure
sem rancor

e do calor
vem a ânsia
de quebrar o ovo e buscar o novo
sempre de novo

pois na roda mutante
nada vai mais de um instante

e se não sei o que acerto,
se acerto, se é certo,
só sei que mudar é mais importante

Quem não explora atrás da esperança
nem se arrisca,
não vive criança

No céu

minha seta conquista a distância,
a estrela pisca
transforma a lembrança

Na lua

não mente o que sente
o coração:
com paixão não há compaixão.

Se, mudo, mudo de ti assim,
perdoa-me,
componha-te.
Queixas não ouvirás de mim.

segunda-feira, junho 11, 2007

Joystick

Te vejo no tédio:
remédio.

O fósforo habito...
palito?

Do corpo sou ramo,
te inflamo...

Se falta a faísca,
me risca!

domingo, maio 06, 2007

A vida como ela não deve ser

Homenagem ao gênio rodrigueano instalado em nossa hipocrisia cotidiana.


A ciumenta

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Ao ver com ela uma cena louca de perda e morte no cinema, o rapaz começou a pensar e perguntou, de repente e despretensiosamente:

- E se a gente terminasse? Você ia também querer me matar?
- Sim, por que não? Hehehehe...
- Não, estou falando sério? E se a gente terminasse?
- Por que, você quer terminar comigo?
- Não é isso.
- Então por que essa pergunta cretina? Faz alguma diferença?
- ...

Ele não respondeu, mas a verdade é que fazia. Queria saber, não obstante a amasse loucamente e nunca tivesse pensado em deixá-la, se continuava no domínio do livre arbítrio ou estava preso ao compromisso.

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A perseguição

Até aquele dia, o rapaz tinha vivido na mais absoluta harmonia com Suzete. A jovem era bem-huumorada, não implicava com nada, nem com a sempre suspeita combinação de futebol, cerveja e amigos desacompanhados que Malaquias se reservava às quartas-feiras. Ele, bem apessoado, até se incomodava com a falta de ciúmes da pequena. A seu amigo mais próximo, Genésio, confidenciava: "Acho que ela não gosta de mim, nem se importa quando passo com ela na rua e as outras me comem com os olhos!"

No entanto, naquela noite, no cinema, ele viu nela uma fagulha de senso de pertencimento: era o tal ciúme mesmo, um medo descabido do fim. E aquilo o perturbou. Suzete continuava a se comportar como sempre, permitindo-lhe um desprendimento que beirava o inusual. Não se importava nem com a proximidade constante entre Malaquias e amigas bonitas. Ainda assim, o rapaz começou a achar que a namorada mandava vigiar cada passo seu.

Os dias se passaram e agonia foi crescendo. Qualquer brincadeira da mulher no sentido de mostrar um ciúme lúdico punha-o apavorado.

- Minha pequena me persegue, é o cão!, dizia a Genésio. Olha feio para todas as minhas amigas!

- Que nada, rapaz, ela só pensa em ti! E nem ralha com o teu futebol, nem quando você chega bêbado na casa dela, com cheiro de pinga...

- Pois é! Alguma coisa tem aí, te digo! Aposto que ela manda alguém me seguir!


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Desfecho inesperado


Meses depois, Malaquias já tinha hábitos um tanto heterodoxos. Saía de casa em horários escusos e disfarçado, e percorria trajetos despistantes. Como não descobrisse nada de diferente no temepramento da namorada, arrumou uma amante, só para ver se Suzete o vigiava. Com a nova pequena, uma feiazinha chamada Isabel, tornava-se cada vez mais descarado. Uma vez foi com ela ao cinema da cidadezinha de interior, na frente de todas as fofoqueiras, só para ver o resultado. E Suzete nada dizia, com o que ele asseverava: "Aí tem coisa! Ela me vigia, deve ter vídeos, fotos, eta diabo ciumento!"

Um dia, irritou-se, foi com Isabel à casa de Suzete e perguntou:

- Escute, você andou ouvindo que ando saindo com Isabel?

- Ouvi sim, meu amor, mas é tudo intriga desse povinho maldoso! Te amo mais que tudo, confio em você! Isabel é só uma amiga, não é?

- Mas como é falsa! Disfarça esse teu ciúme agora, disfarça!

E beijou a boca de Isabel na frente da namorada, do sogro, da prima deficiente. Foi escorraçado sob vassouradas da tia fofoqueira. Só então se deu conta da besteira que tinha feito, do relcaionamento perfeito que tinha destruído frivolamente, desde aquela noite no cinema.

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O cinema e o burro

Mudou-se da cidade com Isabel. No dia em que soube, por um primo maldoso, que Suzete havia se casado com seu antigo melhor amigo, Genésio, foi com a ex-amante ao cinema ver um musical.

Ouvia aquelas canções, poemas sonoros, com os olhos marejados e a milhares de quilômetros. A mão que acariciava era outra, mas nem parecia. Ao pensar na pequena que perdeu, uma lágrima rolou em seu rosto. No entanto, de súbito mudou de idéia: pensou em Genésio e ficou com raiva.

- A culpa foi desse cara, agora eu vejo. Era um filho-da-puta mesmo. Estava de olho nela e inventou que a pequena era ciumenta só pra roubá-la de mim.

Isabel, conformada com o homem burro e bonito que tinha arranjado, limitou-se a mandá-lo ficar quieto, para que não atrapalhasse o filme.

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Conto escrito em 02.05.07

quinta-feira, abril 12, 2007

Duas da gaveta trancada

(que cara sem-vergonha.)


Sujo

tu és tão bonita
e talvez safada
o jeito me irrita
a voz me enfada

não gosto de ti
mas esse é teu dom
o te destruir
parece tão bom...

Te odeio
te venero aos palavrões
te anseio
em mais de mil perversões

não peço licença
resmungo
não é bonito, é sujo
vem convalescença
retalho
não te amo, te sujo

com força, conduzo
com raiva, produzo
teu gozo, deduzo...
Ei, vamos terminando!

está tudo de fora...
vazam rios de águas tristes
vazam rios de almas tristes
na noite mais fria
com a mente vazia

eu quero ir embora.

Marcus 02/02/05

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Curvas

sussurrava suspiros sórdidos.
Serenado sob os seios,
sentia sobrarem sedes surdas.

Submisso,
sofrido e omisso,
sorvendo suas curvas,

um gesto perfeito!
Gemia em jatos,
jorrando os fatos,
e, sim, satisfeito.

Marcus 03/04/05

quinta-feira, abril 05, 2007

Arco-íris ou ponte-aérea?

Na secura azul do céu
do rubro da fantasia,
sonhei que daqui saía!

Sonho bom da realidade...
Faz do azul-pastel
cinza-chuva e felicidade

quarta-feira, abril 04, 2007

Decoração

Somos dois, eu, pelo menos...
e qual "eu" eu vivencio,
qual que nos influencio?

Queimo a alma bem antes da bigorna
e sem temer meu fervor ascético
nem minhas paixões tortas
forjo meu espírito com marretas invisíveis
e o penduro em minha porta

terça-feira, março 20, 2007

Sabor do vento

Estive pensando
o caminho não ficou impresso
mas o vento andou soprando
por nós

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Crescimento

Vi-me mais alto que meu eu
um tal desengonçado e inseguro
pensando unicamente no futuro
e nunca mais no que já feneceu

Da cama eu caía ali por perto
buscando o aumento na lembrança
mudança invisível que me alcança
por tempo que não é sabido ao certo

Vi-me aqui fora, cristalino,
e, no espelho, imagem que não some,
forçamos meu caminho no destino.

De quem eu vi, eu nem sabia o nome
Vi-me alegre por não ver menino
vi-me alegre por não ver um homem

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Outro jeito

Poesia asséptica,
límpida,
milimétrica,

és tão bonita que quero imperfazer-te
diversa como a diversão
espero ter-te na mão que tirita
perversa como a razão
que se descobre não-racional
e, nobre, se verte no mal
que se chama emoção.

Não há outra maneira de jogar o jogo da maneira que eu jogo.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Feliz 2007

Um ano de luz e alegria a todos.

Sinceros abraços aos amigos e inimigos.

sábado, dezembro 16, 2006

Consolide

Sabes que a dúvida é dádiva
mas não sabes de antemão
se a fraqueza é a solidez
ou se a força é a solidão

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Sobre a escolha

Espremida entre entrada e saída,
ela naturaliza a eternidade
faz do encontro a despedida,

aproxima-te da morte.

De um tiro só, mata o acaso;
agridoce decisão de ordem
subscreve em tua vida um prazo.

Forja-te adulto, incauto, inculto.
A mestra das encruzilhadas
edita o entrópico insulto.

Mas, das coisas imateriais, a medida
nada mais é que um gargalo
de onde brota força de vida...

quinta-feira, novembro 30, 2006

A ventura

A salto,
humanos para o alto!

A ventura
é vento de loucura

Qualquer sorte
de grandeza
às vezes é a morte
às vezes,
a fortuna

terça-feira, outubro 31, 2006

Solidez

Desfruto do descanso na encosta
na pausa cuja causa é a ação
ou o vento da vida imposta

Antigos sonhos têm hoje a realidade da poeira,

sólida e de passagem

Daqui vejo a paisagem viva
esperando que o panorama
se torne perspectiva,

sólida como miragem...

Os sonhos estão acima de mim,
de minha retidão e torpeza,
num tear e desfiar sem fim,

numa sólida imagem!

As escolhas são como a juventude doce, ou mais,
em que os sonhos não se concretizam,
paralisam
e todas as possibilidades são reais

terça-feira, setembro 19, 2006

Sobre a nova casa

se o seu sangue se espalha
se o céu seu é azul
se o seu sol é fornalha,
não viste a cidade-avião,
em forma de cruz.

O lar dos três elementos:
o fogo que queima de cima
o ar que esfria para amar
o pó que engasga e anima
e a água que não há,

a não ser em Paranoá
e suas ondas azuis.