quinta-feira, novembro 24, 2011

Noite em fuga

Daqui do lugar errado
imagino que possas sentir

Hoje meus pensamentos
de tanto ocuparem-se contigo
projetam-se na noite,
manipulam o ar em tua direção

Sonho a concomitância
induzida ou fortuita

enquanto a noite foge de mim

É tanto aperto que tento
vasculhar a poeira dos mendigos
passos teus pela noite,
mas se fecham em vazio as mãos

Trai-me meu sonho, e a distância
já não me importa ser muita

enquanto a noite foge de mim

quarta-feira, outubro 12, 2011

Termite

Libera essa matéria
a madeira no fogo nem sente
do corpo pra mente

no brilho a alumínio
aqui se transfigura
todo desígnio

sexta-feira, setembro 02, 2011

Trança-pé

Na rua escura
o homem anda em
direção a seu destino

(Em que noite
nosso destino
não é decidido?)

eis que braço torcido
do solo ereto
vinga
a cicatriz de concreto

e ferindo o chão
aufere
tropeço também é ação

quarta-feira, agosto 31, 2011

Por sonhos maiores que a noite

O fio da aurora dura só mais um passo
tece-se a última dança
na sombra

aquece-se o ar,
e a noite vai acabar

se vem a luz,
faltará veneno
para viver nesse mundo pequeno

quero mais nada a não ser respirar
por esses desejos de fumaça

Vencerei esse sol árido
que não há de brilhar hoje
até que os sonhos cheguem ao fim

Por uma ilusão completa em mim

quarta-feira, agosto 10, 2011

Noite letrada

Abandona as vias cifradas e numeradas
Buscando novos códigos feito caça ao tesouro
Pelos parquinhos de flores negras
Pelos caminhos desprotegidos da noite aberta
Exposto aos raios, aos botes de estranhos
Aos potes e a banhos, aos corpos tacanhos
À psicologia oculta dos rebanhos

Brasília cidade
metrada e vadia
Vai da aritmética à poesia


Brasília, 15/10/2008

Playtime

No pingue-pongue do peito
acreditando não acreditando
coração dança
aproveito

alma balança vem com efeito
devolvo a vida vai com força
vida avança
enquanto espreito

esperança no meu leito
no ziguezague do fogo
ainda ganho
do meu jeito

quinta-feira, julho 14, 2011

Negra rosa

Ao lado da parede do fundo da escuridão
onde só me alcança o vento
de dentro

No canto mais isolado da noite, impublicado
Há algo que alimento

E lá escorrego
escondo e rego

uma nesga de sentimento

segunda-feira, julho 11, 2011

Vazante

de repente a compressão no coração cheio
água vai transbordar

se a alma inunda
escorre mágoa
calma imunda sai
tudo sai nesses dois rios

pode parecer injusto
finda a correnteza
o povo migrante

mas pode esperar

nos leitos sombrios
depois da vazante
algo se move

afinal ano que vem
dizem que chove

quarta-feira, julho 06, 2011

Bússola

Andando pelo deserto onde moro
perdido nas dunas do pensamento

de tão sério,
deslizo no desejo
estéril

sigo inerte caravanas de sede
migro buscando a terra

onde se age e erra

sexta-feira, junho 24, 2011

Electro-pompe

Vedado do mundo
com meus desejos de escuro
(-ou meus escuros de desejo?)

eis que sinto o ebulir nos caldeirões de feitiço da alma

Isolado com meu bálsamo noturno
escuto a voz, rítmica e baixa
novamente canta algo essa caixa

bomba alimentadora
submersa no mangue
do meu sangue

segunda-feira, maio 16, 2011

Pangeia

sentado na beira da terra
balanço as pernas
no cais aéreo

espero a nave que me fará atravessar

essa água a impor
tanto
delimita amor
e pranto

onde está o fim desse mar
que vela para que os continentes continuem assim, separados?

mantém-me longe da minha vida
onde quer que ela resida

sexta-feira, abril 29, 2011

Ventania

Papelzinho decola no frio
doce voo sem asas

seu corpo solto
não pensa, só sente
a suspensa corrente

na brisa envolto
acaricia a cidade
desafia
a grave idade

seu destino fatal
chega mais rápido que ar
da noite de Dacar

quinta-feira, abril 21, 2011

Infecção

a hiperemia do meu peito
me toma o respeito
madrugada
se queima assim não vai restar nada

cresce em mim como um edema
poema que pune
meu sistema imune

Inspeto a pira, tá certo
inspira,
inseto

sábado, abril 09, 2011

Febre

Dança em delírio a madrugada
esse tempo de tudo e de nada
cintila e incendeia a calma que havia

Retornarei numa manhã fria,
mas a normalidade morna, apagada,
derreterá os cristais que levo em meus olhos

segunda-feira, março 07, 2011

Senciência

às vezes me pergunto
por que tanto me espalho por aí

ando o mundo inteiro atrás de um sentimento que já tive
tentando descolar a consciência de mim

... hoje acordei querendo ser enganado.

às vezes me pergunto
no que é que me espelho por aí

no vento, no vento,
não ser e estar,
ser e não ficar

se de verdade estou onde queria estar e faço
o que queria fazer,
com razão,

eu só queria mais coração

quinta-feira, março 03, 2011

Trincheira

vida fugaz
linha sozinha
a paz não me apraz

mergulhado em mim
vivendo eternidades de aridez
meu exército treina e espera

sem saber nem ao menos
de que lado entra na guerra

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Água mineral

Dia quente
e lindo

Envolto nessa alegria,
admito, não tive razão,
mas bem percebi que havia

uma fonte de água gelada
cristalina e doce
e fria
dentro da caixa pequena fechada
sincera e doce
e fria

Coração ainda de menino
Eu que morri e que vivo
dentro do mundo que imagino

Recuso o que emana do dia
dos sonhos felizes do ar
comungo só com o luar
que escalo na ventania
pra deixar a alma vazar

inteira
em cachoeira

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Bronchitis

I still stand here wet
wishing you to float into that air of hopes again

I had devised a world in which the light of you that I smoked would never go out
And the soft texture of your skin never burnt me fingers and
chest and thought
The lonely sweet ashes into which you’d be slowly consumed could linger
by the toxic inhaling of dancing you
perfuming these lungs of mine

But when I was about to suck you in
I was left in the dark to cough alone
And light rain damned me as your fire just disappeared

sábado, janeiro 29, 2011

Desassentado

Tanto andou pelo mundo
atrás de teto que agora
prefere ser vagabundo

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Natimorto

de certezas
o vento que varre lá fora
não traz um grão sequer

as mãos que se estendem
se contundem, se defendem

e a vida verdadeira ocorre em ciclos silenciosos de vício
em que o coração se alimenta de mil amores platônicos
impossíveis para quem já chora lágrimas para não mais precisar chorar

e assim me amordaço até que o grito que só eu escuto me enlouqueça