domingo, setembro 26, 2010

quinta-feira, setembro 02, 2010

Frete

importa qual o navio?
embarca-se mercadoria
sem medo de extravio

em toda partida dada
a vida será partida
a parte será selada
o sonho, cantiga ida
o sonho, fé renovada

em portos de qualquer porte
há mares imaginários
em surtos de toda sorte
amares imaginados

terça-feira, agosto 17, 2010

Barco

Acampando na sala de estar
eu deixo estar
de novo

Experimentar a covardia
é um exercício
do povo

Se eu me atrevesse a atravessar
o mar de dor e mágoa que nos une
o mar de paz e água que nos separa

me levaria o barco para o tudo e para o nada
para a vida por que anseia minha alma exilada

Mas o recomeço precisa de um tropeço

quinta-feira, agosto 12, 2010

Minhas janelas para o mundo

Do escuro vejo piscando cruzes,
Sirenes que vão e vem, luzes,
Não sei se emano minha solidão ou a colho da noite

Sei que estou longe, mas te penso aqui
onde a aurora de opala não te pode sentir
Não sei se emano minha solidão ou a colho da noite

Da sala vazia, sombria, vejo um porto macio
Que leva pro dia, pra longe, pro frio
E não sei se emano minha solidão ou a colho da noite

quarta-feira, julho 07, 2010

Eterno ringue

a noite cai a mente vê
a paz não é fácil
como nunca será

numa sala escura fechada
meu coração cerra os punhos
e se prepara novamente
para lutar

quarta-feira, junho 02, 2010

segunda-feira, maio 31, 2010

Harmattan

Essa neblina seca
transformou

o ouro é prata no céu
o sono é sede no chão

e a gente arenosa rola com o vento
esperando a chuva que alaga os sonhos

quarta-feira, abril 28, 2010

Sinapse

Voando livre e leve
como um pensamento

só temo o que se deve
pro esquecimento

sábado, abril 03, 2010

Crescente vermelho

ódio rasgado na curva
unha enterrada, num corte cirúrgico,
neste despertador movido a sangue
que um dia há de me fazer acordar
para a eternidade

quinta-feira, março 25, 2010

Não lugar

A nuvem de poeira vem do deserto
da beira da minha costa
voa longe o coração mais perto

estive onde vira o mundo
que vaga e vive, vagabundo,
odiando o que você mais gosta

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Comprando cigarros

Não achei que fosse tão fácil sumir, e não é. Sair de cena como fosse ao cinema ou, clássico é clássico e vice-versa, dar uma volta para espairecer e comprar um Marlboro Light no boteco da esquina.

A vida é tão interligada que está sempre mais difícil desaparecer de vez. Claro que o Brasil de hoje não é tão diferente do de antigamente, ele ainda é meio Central do Brasil. Uma ida do interior de Pernambuco à periferia do Rio de Janeiro, nas infindáveis horas do busão ou da boleia do caminhão, ainda pode desmembrar uma família, mas hoje o sumiço é muito mais difícil. Hoje sempre há um telefone celular que alguém ainda conheça, um amigo-cúmplice que eventualmente dá com a língua nos dentes, uma conta de e-mail perdida que você não teve coragem de apagar, como um cordão umbilical que ainda te une ao mundo a abandonar.

Vejam por exemplo o coitado do Belchior, só queria abandonar honestamente a mulher e os filhos, como tantos que o precederam, mas tinha o Fantástico para achá-lo no interior do Uruguai. Interior do Uruguai! Não basta mais morar na periferia ou numa favela, como o Hulk do Rio. A localização familiar já se expandiu ao Mercosul.

Claro que os anônimos contemporâneos também têm problemas. Hoje não há mais, por exemplo, a ditadura pra sumir com você; só a violência das cidades, a polícia, os bandidos. Mas isso não é sumir com qualidade. O sumiço ideal tem de ficar cristalino como sumiço, não pode parecer crime. Ou você quer sua foto estampada nas contas de luz da CEB, no intervalo do Linha Direta ou de alguma novela da Gloria Perez? Aí te acham. E a família desesperada nos seus calcanhares? Vai te deixar em paz? Muito melhor se, mesmo não tendo a capacidade de argumentar, de implorar a sua não-partida ou mesmo de ofender, a criança ranhenta ou a moça grávida saibam que você é um cafajeste, um pilantra, um covarde que simplesmente resolveu dar um restarte numa vida não-recomeçável. E é melhor pagar as contas antes de sair, para sumir sem o SPC bloquear o seu cartão escondido, para evitar credores em geral, que têm sabujos ainda mais eficientes que os das mães solteiras e encontram qualquer Zé Carioca em uma lata de lixo escondida.

Esse é o mundo de hoje. Mesmo aqui na África Ocidental, do outro lado do Atlântico, numa cidade de 2 milhões de habitantes, tenho todas essas tretas localizadoras: e-mail, orcute, feicebuque, celulares, emprego com página na internet e telefone, conta no banco e carteirinha. Mais localizável que se estivesse pregado num banco de madeira no Rei das Batidas numa quinta à tarde ou sentado no vão do MASP na véspera de Natal às 10h da manhã.

Se um dia precisar sumir, vou ter que ir ainda mais longe, para uma cidade ainda mais populosa ou remota. Apagar todos perfis e cancelar e-mails, pagar contas e, principalmente, começar a fumar. Aí vou poder tranquilamente sair para comprar, como diria o amigo Xico Sá, o king size sem filtro do abandono.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Setor hoteleiro full-time

na esse-dois perto da esquina com a dáblio-três
por baixo do eixinho-ele
debaixo da sua pele

nos vácuos da luz
a noite fuma meninas,
eonistas e insultos

nas pistas da Viadulto
é o lixo que seduz

eis o programa de voo do avião
por onde passe,
da primeira à nona classe

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Volta à capital

um dia em que não estava fazendo nada
pintei um ponto branco bem no meio do mapa
peguei meu carro e lá fui descobrir aventuras
voar nas asas
não de ave mas do avião
monomotor
que eternamente cruza parado o meio do Brasil
batendo o mesmo ponto
sempre naquele turno
sozinho e vasto
vago e soturno
como a imensidão do céu do centro

que hoje é cinza
como o concreto desse chão que cobre a nossa terra vermelha

quinta-feira, novembro 19, 2009

Esgoto

que humano barato
que humana barata
eu sou,
pode falar!

nas águas sujas da vida
em armários cheios de sobras
sobrevivo à hecatombe
nuclear

quarta-feira, outubro 28, 2009

Haliêutico

suor é lágrima
no seco há sal

transborda a tristeza e a tensão
regula a temperatura do corpo
e do coração

segunda-feira, outubro 05, 2009

Xadrez

meu espírito é gris
quadricula-se infinitimamente
em degradê

do branco da manhã
ao preto de depois de você

sexta-feira, setembro 11, 2009

Deixa pra cá

em volta
na distância
na lembrança
-ou pensamento-,

se te arranho por dentro
vês que é preciso tempero
pra viver no desespero

poderás lançar sobre mim
o nada que, sim, mereci,
mas nunca saberás, de fato,
tudo o que senti

segunda-feira, setembro 07, 2009

Do contra

nesse vento
nada gruda
nessa vida
nada fica
isso é lento
nada muda
e a ferida,
calcifica?

sexta-feira, agosto 28, 2009

Gergelim

só surge a vida
se não tem saída
quando fica mais seco
abre-se o sésamo desse beco

mas quando o chão que piso e suja e gruda
fica menos úmido
que esses sonhos que engulo de saliva e pó
vem chuva

abre-te, pira
semen-teiro
sê-me inteiro
sê mentira

ensimesmado,
boquiaberto
chego de errado
no tanto certo

e minha alma se faz
límpida como esse céu de nuvens

ainda não sei
ainda
se realmente estamos prontos para tanta vida