quarta-feira, janeiro 15, 2014

Tour de remorse

Prometo nunca dormir nessa fuga

já houve um tempo
em que mereci sua atenção
mas agora nem me lembro

não a quero

andando pelo imprevisto
não a despisto
segue a caça de seus cães

sempre que a mato
ela renasce a jato
do ventre de outras mães

hoje vou saindo do dia com raiva
hoje houve mais um enterro
da culpa em outra cova
da culpa em outro útero

alívio e alento
até outro nascimento

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Cardume de um homem só

Empolgado a flutuar
sobre a tal felicidade
que o fim só prefacia

mergulho em um trago
qual piscina turva e fria
e me sitia esse lago
de asfixia

quando emerjo
há apenas uma flor negra nova
que nasceu de um azulejo

sexta-feira, novembro 30, 2012

Alpha Crucis

o suspiro final da esperança torta
já expirou

de volta ao ponto de partida
tudo que brota é prece
para que a decomposição
volte a fagulhar vida
onde a miséria cresce

sexta-feira, outubro 12, 2012

Espargir

pequenas rochas voláteis
bombardeiam
o jardim de fome e gelo

radiação
emano ação

a morte borrifa pedras
no deserto
para matar
o que não mais há

quarta-feira, setembro 19, 2012

Críptico

escondido aqui dentro
emito minha mensagem
em código ao vento

meu mar de intenções inunda
o ar que circunda
 
quem sabe chegará o dia
em que quebrarás
minha criptografia

afinal, há tanta dor
no silêncio

revelador

quarta-feira, agosto 15, 2012

Xenofilia

Ei, azulzinho 
te visito
onde não habito

por onde for
brilho para aliviar 
toda essa dor 

contra a natureza
me combino
com o meu destino

quarta-feira, julho 11, 2012

Alma de neônio

Brilha em mim
noite que se acende colorida
de passagem

Fôlego de gás
se te trisca
me pisca
na voltagem

sexta-feira, junho 01, 2012

Argônio

Solto pelo ar
vago
sem me misturar

esquece-te de mim
e inala-me, querida

invado-te assim
também produzo vida

terça-feira, maio 22, 2012

Hélio

desinflar
fugindo pelo espaço
que bom ser um balão pelo ar

mas queria ser de aço

sexta-feira, abril 13, 2012

Desperta a dor

Tudo que vem chega na hora
não adianta nem demora
não é tão cedo como canta o medo
nem tão tarde como a noite esconde
em algum lugar no tempo
não sei bem onde

Tudo que vai parte na hora
não adianta nem demora
nem tudo chora quando aponta a aurora
nem se arde quando o relógio apita
em algum lugar ao vento
a vida grita

quarta-feira, março 21, 2012

Hipocondria

vem e chove em mim agora
sem alagar
podes dar só uma hora
e me deixar?

se mergulho, fundo fico,
e a saída é complicada

desse entulho sou penico,
não queiras uma privada

se a água dessa poça
já lava minha louça
quero meu coração em pílulas


segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Entremortes

Do presente indefinido
vejo cinco caminhos que voltam
pro que talvez tenha sido
quinze que (me) partem e escondem
me escoltam
quem sabe onde

Vou vivendo do que fui e ninguém soube
do vasto vazio imenso em que nada coube
me alimento do que mastigo sem engolir
no momento desprovido de porvir

quantas vezes morri onde faltou a memória

domingo, fevereiro 12, 2012

Ameias

À meia-noite
ameaça

meio viva
meia calça
minissaia

ameia-te
negativa
nega e saia

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Recuo de bateria

fiz-me passageiro desse corpo

recuado do pára-brisa
estou atento a todo movimento

aproveitando o ponto oco no peito
sem vento
meus dedos de dentro batem

tum durum dum dum

na caixa de ressonância
o ritmo
não alcança a distância lá de fora

ainda assim
minhas mãos de autômato espalham adubo para sonhos

quinta-feira, dezembro 22, 2011

Passageira

quando passa,
a repulsa passa
ternura
sentimento que enlaça
e perjura

o delicado da tua certeza
despeço a teu mando
não passo do estelionato
dos teus hormônios

vai passar

e, enquanto é posta a mesa,
seguirei dançando
ao som das solas dos sapatos
dos meus demônios

até passar

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Em meio à areia

Na areia não cresce nada

é fácil viver no clima seco
a principal conclusão é ser prático:
faça o que quiser nessa temporada
na areia não cresce nada

mas veio água e a visão
de um rio límpido em meu caminho
e canais por onde a água corre para nutrir
os jardins onde finalmente
encontraria uma morte doce
para meus sonhos de semente

pateticamente hesito a germinar
mas te peço
me espere só mais um pouco, riozinho

se a fragilidade da vida respeito
agora pelo menos sei
que ainda bate algo no peito

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Harpoon

I thrust my mind into your barrier of darkness
obsessively trying to bridge
the gap

the thoughts I throw to you go ashore
over and over
deflected by a shadow,
I can barely feel you

submerging

If only I could have you plunge
into my own void of oblivion

I'd be satisfied to be adrift in these black waters

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Desengano

Romper o dia da vida
espairado na desinquietude
da aceleração do tempo

ao lado todo mundo morre

com a pressa celebram bodas
vai aonde essa corrida?

à maior ilusão de todas

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Entorse

Saltando ao alto iluminado
largando ou recolhendo
os sonhos do ar gelado
ao meu peito
rarefeito

esforço
só quando me faço sólido ao solo
aterrisso, torço
em atropelo

tornando ao zelo

quinta-feira, novembro 24, 2011

Noite em fuga

Daqui do lugar errado
imagino que possas sentir

Hoje meus pensamentos
de tanto ocuparem-se contigo
projetam-se na noite,
manipulam o ar em tua direção

Sonho a concomitância
induzida ou fortuita

enquanto a noite foge de mim

É tanto aperto que tento
vasculhar a poeira dos mendigos
passos teus pela noite,
mas se fecham em vazio as mãos

Trai-me meu sonho, e a distância
já não me importa ser muita

enquanto a noite foge de mim

quarta-feira, outubro 12, 2011

Termite

Libera essa matéria
a madeira no fogo nem sente
do corpo pra mente

no brilho a alumínio
aqui se transfigura
todo desígnio

sexta-feira, setembro 02, 2011

Trança-pé

Na rua escura
o homem anda em
direção a seu destino

(Em que noite
nosso destino
não é decidido?)

eis que braço torcido
do solo ereto
vinga
a cicatriz de concreto

e ferindo o chão
aufere
tropeço também é ação