Terça-feira, Julho 07, 2009

Esse tempo

O sol que abençoa
é o mesmo que pune, magoa.

Infatigável
é seu peso na minha testa,
cancerígeno e gostoso

nesse me-render a ele,
no criar da sua sombra,
fiz-me líquido e gasoso...

o sol à-toa, imune,
é o mesmo que nos une.

Dobrar-me à sua vontade, inutilmente,
é algo que eu sempre fiz ultimamente

Segunda-feira, Junho 29, 2009

Freezing halfway over the world

não me esqueça
congelado
nem me esconda

sou do agrado?
me aqueça
no microondas

Óleo verde

mar de areia
a banda verde
incendeia

sobrevivo,
seco como
lábios líbios

Segunda-feira, Junho 08, 2009

Partida

Aberta a porta
meu capacho é pesar, é pranto, é pó
é parêntese

Segunda-feira, Junho 01, 2009

Heisenberg

Fazendo girar
o mundo
vou correndo
vou voando

meu coração bate,
depois pede
quero ter tudo pela frente

Para não ser
localizado
é preciso
velocidade

o chão traçado late,
depois cede
quero ser tudo pela frente

Para ser, em sonho, tudo,
necessito não ser nada,
não há o que me faça claro;
--tuas ondas não me acham
estampado no anteparo...

Quinta-feira, Maio 14, 2009

Responsabilidade

Não sou o responsável
não!
Alegra-me a liberdade
da falta de resposta
da brisa largada, amável!

o mau que só inspira o bem
o com que prefere só sem

Terça-feira, Maio 05, 2009

Vaga Amor, Vago Amar

Quisera um amor que fosse a-mar,
um amor que não fosse vaga, que não fosse vago.
O mar há de ser sempre amaro.

Quero um a-mar,
um amor que invade e não se recolhe das calçadas, das casas, das ruas.
Quero a vida que arrebata, que afoga, que mata,
que é sim sem ser não.

Um amor que cega sem seguir
ou cobrar, no cobrir
das areias da solidão.

Segunda-feira, Maio 04, 2009

Desfazendo-me

Toda noite contigo é dia;
Toda conversa, caminhar na prancha,
Todo sonho contigo é mancha.

Mas, se o choro me alivia,
também deprime, desloca, desmancha:
desnuda-se minha covardia.

Quarta-feira, Abril 08, 2009

Vagando

Se vago, se volto,
atrás de qualquer coisa e não de coisa qualquer,
com a mente esquecida da vaga inconstante,
não movo esse saibro com minha maré

Minha mente, de passagem,
está sempre em viagem.
Não processa
nem reflete
nunca nada
além de pressa.

Ainda assim,
gosto da leviandade que subsiste no umbigo da noite,
mas trabalho tanto o tempo,
que o retiro amargamente do dia.
Desperto, desaperto
e sou nada,
embrião de saudade calada.

Onde estive,
quando me procuráveis,
onde estava,
quando apareci?

Se quando parti eu sonhei que ficava,
e, agora que fico, só quero partir?

Quinta-feira, Março 05, 2009

Extemporânea

Neste momento, o que sei é que
só compartilhamos a presença onisciente da noite

Mudança de estado

Sublimando minhas certezas,
ao condensar a mente, cansada do voo,
deitei pelos olhos a alma liquefeita.

Fundi os sentimentos com enjoo
e congelei a chama, que fique presa;
que o que ebole depois sujeita.

Sábado, Fevereiro 14, 2009

Atmosfera

O céu aumentou com a distância

Nas retas oblíquas de Brasília
abraça-me o vento
mas, se retribuo o carinho ao breu,
não sinto nada

sem você
esta cidade se sente como eu
abandonada

Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

Arqueiro de Códego-City

Tocando feito harpa
teu arco imenso
de pó vermelho e cifras

Descubro; melhor, revelo
da terra seminua
tuas caixas enfileiradas
tuas regras
tuas ruas

Revejo tua cidade invisível
do tal povo que bem sofre, não sei onde,
da flecha que te justifica e fere
das vidas que ostentas e escondes

Não causa estranheza teu papel
e o que desfiro faz mais sentido
se me cobre, quando atiro, o teu céu.

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

Burocracia

Documentos secretos
não comente
do cu
mentes
se retos
ou não

Resignação

Por querer ser tudo
por que não ser nada?

Apenas porto meu disfarce
e já posso tomar parte!

Que bela e convencional arte
essa de violar-se...

Domingo, Janeiro 18, 2009

Hermeticamente

Denso mas fugidio
mercúrio contido no vidro

A física do calor que expande
não transborda

Tenho nas veias a prata rápida
tóxica e fluida
nas mãos, a ascensão da energia
e a combinação do que se associa mas não se confunde

Porém, se minhas duas serpentes
me tornam mensageiro dos deuses,
interpreto, apenas,
e vivo nos limites da minha mortalidade

Bom comportamento

Noite colada nos olhos
gargalo escorrendo abaixo

penso não caber nos papéis
nos testes de atores da vida

ao fundo, isolado da hora do sono,
intuo
primeiro passo para a maturidade é deixar de frustrar-se

Sexta-feira, Janeiro 16, 2009

Mordaças

Na praia, entrevi a intenção rosa
não-pano que não cobre
e esconde

Deste lado, preso, o pássaro
finge sufocar

Segunda-feira, Dezembro 01, 2008

Meus parabéns

Prestes a fazer aniversário,
escrevo desejando-me felicidades,
e são muitas as minhas vontades
para essa tarde de sagitário.

Estranho alguém desejar o melhor para si,
mas isso é o que me ocorre
agora que me achego do que morre
e me afasto do que nasci.

Dos familiares quero amor,
Dos amores, compreensões quaisquer,
Dos grandes amigos, os momentos de sempre,
sempre que der.

Dos amigos distantes aquela lembrança
concreta ou abstrata,
um pensamento, um telegrama,
uma visita, uma carta,
mas que não se esqueçam desta data.

Que eu nunca alcance a perfeição,
mas nunca desista de viver;
Que a infância nunca passe,
nem o sorrir,
nem o sofrer.

Que as forças ocultas ajudem a todos
juntos
em especial.
Feliz aniversário para nós, afinal.

Terça-feira, Novembro 18, 2008

Escorpião

Seu rastro é perceptível, que tal?
no cheiro de enxofre cósmico,
na trilha aérea internacional
na urina dessa meia-lua,
na noite parceira de rua

a música já ouvi
levanta o astral
e canta...
o cara-de-pau

das ruas da bastilha
ao mercado de omdurman
o trem... singra pelo ar
espiando pela escotilha
no catar ou em amsterdam
ele vem, vai desembarcar

Ele pica antes de atirar

Está levando a cabo
a nossa destruição
que doce este final!
Terrível o tal diabo
do inferno astral

Domingo, Novembro 02, 2008

Andarilho

Esta poeira grudou em minha pele
corro no vento para torná-la ao nada
por ora, volto para de onde vim...

Mas a terra ínfima, pulverizada,
da cor da noite não há quem desatrele,
se a poeira hoje é parte de mim.

Este vento resfriou-me de levada
um mar de pó que tanta vida propele
são faces e risos e coisas sem fim...

Pois a terra ínfima, pulverizada,
da cor da noite não há quem desatrele,
se a poeira hoje é parte de mim.

Não há eu que o movimento cancele,
inda que a reflexão da mente em caçada
seja vaga, leviana e ruim.

Mas a terra ínfima, seca, pulverizada,
da cor da noite não há quem desatrele,
se a poeira hoje é parte de mim.

Sexta-feira, Outubro 24, 2008

Gol, o grande momento

acaricia a chute
o coração que carregava
por entre os pés

(em cada guerra que se dispute,
de armas ou travas,

fortuna ou revés
fazem amor com a relva
cortada e sem flor

e que no fundo é uma selva
de chance e de dor...)

e em simples lufada de sorte
o homem a todos trepida
instante que transborda vida
momento que inspira a morte

Terça-feira, Outubro 07, 2008

Translucidez

Incomoda-me o sol, pinto de negro minhas janelas
para tentar esconder-me desde cedo
(na manhã da alma o sol sempre brilha mais)
os raios revelam os traços
as mesas não têm gavetas

O erguer do sol faz sombra sobre coisas belas
(e que coisas coleciono, rapaz)
mais que livros tenho segredos
tantos que os armários são rasos
e as camas parecem sarjetas

Vedo as portas, ponho cortinas, apago as velas
(vivo o que de vida é arremedo)
internalizo a expansão dos espaços
para que seja ignorado, tido por incapaz,
e a visibilidade não me acometa

Mas um dia eu quis ser visto, eu quis gritar,
quis mostrar que era belo,
limpo, transparente,
e vi que não era nada disso
nem era isso o que achava a gente

e pude esgoelar-me até o fim

e esgotei
enquanto caía a noite na alma

Quinta-feira, Setembro 25, 2008

Implorar, ímpio chorar

A alma de cheiro é alma de choro,
perfuma,
permite a espuma

Largue-se inteiro, esqueça o decoro
Prostitua-
se prostre e ela é tua

Quero ver seus lábios me pedindo para ficar

Amor maior, do mundo voltei,
dos desvarios da vida de fora!

Mesmo sendo um tarado fugaz,
que satisfaz, mas não se demora,
quero mais a você e não nego

Aceite a chantagem que carrego,
que lhe esfrego, e farei
do retorno a você minha lei:

No mel que escorre
da cana doce chupada, lambida,
lambuze-se por sua vida

porém, antes que eu esporre,
me esgote,
e agora! E de verdade

que a felicidade
é um esporte

Se levo vida em flanada
por Áfricas quentes, Europas geladas
e Orientes médios

voltei e não quero tédio
quero uma enchente da sua saliva
e sua língua mais agressiva
que as explosões de Cabul

quero ver você toda histérica
antes de eu conquistar sua América
do Sul

Terça-feira, Agosto 19, 2008

Hipoglicemia

Alimento-me
por sonhos de fogo-fátuo

nuvem que fosse
algodão-doce
desmanchando na boca
pouca

Não pago a fome que trago
e vês
o pranto que nutro no canto
pelo pútrido pão que retalhas
e pouco crês, e tanto falas,

que não peço,
nem falhas:
tropeço atrás das migalhas.

(e é tudo de graça!
Vivo de luz e desgraça.)

Que eu vede o que vós vedes

Começo e me pedes
tropeço na rede.
É começo em parede
se tropeço e me medes.

Expresso e esqueço
o apreço em excesso,
apresso, enrijeço
e mereço o sucesso.

Recomeço e pareço
travesso, confesso,
te peço, obedeço,
avesso, e cesso.

Sexta-feira, Agosto 01, 2008

Way of life

Aos telhados do mundo,
as pedras que ainda estão no ar
por jogar

Temos a loucura que transborda das pálpebras,
que seca e funde-se à poeira e ao vento
e não nulifica por dentro

Feliz essência de vida e lágrimas!

Nossa revolução, amarrada e muda,
não precisa mais de ajuda